Rio tem taxa de morte menor que a do Brasil

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Comunicação Casa
Data
5 de agosto de 2014

Foi a primeira vez em 32 anos que isto aconteceu no Estado, aponta estudo da Casa Fluminense

André Balocco

Rio – Pela primeira vez em 32 anos a média de homicídios no estado do Rio ficou menor que a do país. A conclusão está no estudo da doutora em Ciências Sociais Silvia Ramos, 60 anos, que cruzou dados do Sistema Único de Saúde (SUS) sobre as causas das mortes no Brasil, e aponta para dois fatores: mudança de paradigma da PM carioca, que trocou a filosofia de confronto pela ocupação de territórios, e aumento da violência no país. Em 2012, pelos números do SUS, a cada grupo de 100 mil pessoas, 28 foram assassinadas no Estado, contra 29 no Brasil.

“Segurança pública precisa ser vista com um olhar macro”, advoga ela, especialista da Casa Fluminense na área. O estudo, ainda inédito e que será publicado em um livro sobre o Rio do economista Mauro Osório, faz parte da segunda reportagem da parceria entre o DIA e a ONG, que se propõe a pensar os problemas da região metropolitana. A pesquisa começa em 1980 e termina em 2012 — ainda não há números relativos a 2013.

“É emblemático termos deixado de ser o estado que mais mata no país”, diz Silvia. “Mas não devemos festejar. O Brasil está entre os dez países onde mais se mata no mundo.” Para efeito de comparação, a polícia americana mata, por ano, o mesmo número de pessoas que a polícia carioca. Para a ONU, taxa acima de 10 mortes por 100 mil pessoas é considerada epidêmica.

“Se matar bandido fosse o caminho, a segurança do Rio teria sido resolvida nos anos 90”, continua ela, em referência ao alto número de mortes em 1995, quando 62 pessoas perderam a vida a cada 100 mil, fruto da ‘gratificação faroeste’. Criada no governo Marcelo Alencar (1995/1999), o mecanismo media a produtividade da polícia pela quantidade de mortos em operações policiais. E pagava por isso.

“O problema da violência no Estado é a polícia, não os marginais. Não foi por causa dos bandidos que a taxa caiu. Foi a polícia, que estabeleceu mecanismos gerenciais modernos, eficazes, e está abandonando a política do tiro, porrada e bomba”, garante Silvia, coordenadora do Centro de Estudos de Segurança e Cidadania, da Universidade Cândido Mendes. “Antes a polícia entrava no morro, matava e saía com os corpos. Duas horas depois o tráfico estava lá de volta, mais forte.”

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Foto:  Arte: O Dia

Toque de recolher assusta em Morro Agudo

O aumento da violência na Baixada faz moradores de áreas remotas viverem sitiados. É o caso de Flávio Eduardo da Silva Assis, o Dudu de Morro Agudo, em Nova Iguaçu. “Há um ano e meio percebo armas de grosso calibre e até fuzis nas ruas”, conta o rapper da ONG Enraizados, de 35 anos.

Além do medo, as ameaças e assassinatos também cresceram — conforme mostra o gráfico acima. “Quem não aceita ordens dos traficantes está sumindo. A mídia só fica sabendo quando acontece chacina.”

Os traficantes também tentam implantar o toque de recolher. “Há quatro meses, estava na faculdade e me ligaram dizendo que depois das 22h ninguém entrava em Morro Agudo. Não arrisquei.” A apreensão de uma metralhadora em Austin, há um mês, espantou o produtor cultural. “Foi no Chapadão. Nunca tinha visto isto por aqui”.

Dudu reclama da falta de policiamento e diz que a Baixada é ignorada. “Precisamos de uma política de segurança local e que a PM respeite os moradores. O tratamento na Zona Sul é diferente.”

Baixada é o contraponto à capital

Os últimos tiroteios na Baixada Fluminense servem de alerta. Para Silvia, ali e na região de São Gonçalo estão o calcanhar de Aquiles da atual política de segurança. “Se não mudarmos a polícia lá, como mudaram a da capital, o tráfico vai exportar o modelo de ocupação territorial”, prevê. “A Baixada merece ser policiada como o Leblon. É fundamental uma delegacia de homicídios ativa naquela região.”

Evitar que os bandidos tomem os territórios ainda é tarefa simples. Porém, caso nenhuma medida efetiva seja tomada, quem critica as UPPs, afirmando que elas exportam bandidos, ganhará argumentos.

“A Baixada não precisa de UPP, um modelo criado para a geografia do Rio, onde as favelas têm entrada e saída. A Baixada é ampla, é outro modelo”, aposta. O aumento no efetivo da tropa e a mudança da mentalidade de quem trabalha nestas regiões são as estratégias apontadas.

“O policial da Baixada cresceu sob a sombra dos grupos de extermínio. Era o sargento barrigudo contra o cara de 38. A realidade está mudando.” O crescimento nos autos de resistência e homicídios da região, segundo o ISP, puxaram a média do Estado de 28 para 29 mortos em 2013 — falta saber qual será a média do país. “

Os autos de resistência mostram que está havendo mais confronto com a polícia. E o roubo de carros indica que há presença do crime organizado. Ainda há tempo de reverter isso.”

Colaborou: Tássia di Carvalho

Matéria originalmente publicada no jornal O Dia

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