“Será que vai chover?”, a ansiedade climática nas periferias 

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Texto por
Luize Sampaio
Data
17 de fevereiro de 2023

Cobrir o espelho, desligar todos os eletrodomésticos, ligar para saber onde o filho está. Ouvir as sirenes, os trovões, a telha balançando e o medo de não saber o que fazer. Muitos podem se identificar nesses cenários e lembrar dos conselhos e práticas de sobrevivência para dias de chuva compartilhados por mães, tias e avós. Em um estado responsável por mais de ⅔ das mortes causadas por desastres ambientais no país na última década, é urgente falar sobre ansiedade climática. 

A Associação Americana de Psicologia define a eco-ansiedade ou ansiedade climática como o medo crônico do impacto da mudança climática e da preocupação com o futuro da atual e próximas gerações. Esse medo, intensificado pelos desastres ambientais, está cada vez mais recorrente. É o que apresenta a pesquisa da Universidade de Bath, de 2021, que entrevistou 10 mil jovens entre 16 e 25 anos de todo o mundo. Para 75% dos entrevistados, “o futuro é assustador “. Os jovens do Brasil estão entre as maiores vítimas da “ecoansiedade”.  

A pesquisa não traz dados sobre raça ou territórios desses jovens, para a bióloga e ambientalista, Karina Penha, é fundamental ressaltar que existe uma diferença em como diferentes territórios e grupos sentem essa ansiedade. 

“As periferias e comunidades tradicionais brasileiras já precisam lidar com a falta de água, saneamento básico, demarcação das suas terras, racismo e insegurança. Além desses mil problemas, ainda são eles os que mais sofrem com os impactos da crise climática. Não tem como essa juventude que vivencia a desigualdade brasileira na ponta não estar ansiosa. Você está descobrindo que o seu território está ameaçado, e muitas vezes o território é tudo que essas pessoas têm”, explicou Karina.  (Foto: Elisângela Leite)

Na Região Metropolitana do Rio, um grupo de jovens ativistas criou a Coalização O Clima é de Mudança: Periferias em movimento nos temas de clima e meio ambiente. Reunindo grupos do Jacarezinho, Realengo, Maré, Queimados e outras partes do Rio, a Coalizão tem buscado compartilhar estratégias e tecnologias sociais que ajudem a diminuir a crise climática nas periferias. A pesquisadora da Visão Coop e moradora de Queimados, Maria Clara Salvador, faz parte dessa juventude que está na linha de frente.

“Combater a crise climática surge quase como uma obrigação porque estamos ali, a enchente está na minha rua e de outros jovens. De maneira emocional, isso parece que coloca na gente uma obrigação, pressão e ansiedade sobre a nossas vidas e futuro. Temos uma juventude potente nas periferias mas que muitas vezes tem sua vida podada por esses processos de violência“, afirmou Maria Clara.

A ansiedade climática chega na periferia aliada a muitas outras questões, apontou também a especialista, Karina Penha. 

“A periferia e comunidades tradicionais têm problemas de sobrevivência, quando a gente ainda identifica que estamos no centro da crise climática é aí que entra a importância da interseccionalidade. Vivemos uma sobreposição de opressões. Mas não acho justo colocar nessa juventude periférica esse peso. Jovens de diferentes realidades têm diferentes espaços e acesso para trabalhar com a mitigação da crise climática. É sempre bom lembrar que estamos na mesma tempestade, mas não estamos no mesmo barco, tem gente no navio e tem gente na canoa”, concluiu a bióloga e ativista. 

A sobreposição de opressões

Na última quinta-feira (08/02), seis pessoas morreram no estado do Rio por conta das chuvas, entre elas uma menina de dois anos, moradora do Morro da Chácara do Céu, na Zona Norte do Rio. Segundo dados da Casa Fluminense, o estado do Rio possui mais de 2,1 milhões de moradias consideradas como inadequadas, além de um déficit habitacional de 481 mil domicílios. Em uma metrópole majoritariamente negra e feminina, a crise climática atinge ainda mais um perfil específico de mulheres negras e pobres.

Entre 2017 e 2022, 2,9 milhões de pessoas foram afetadas, direta ou indiretamente por ocorrências relacionadas às fortes chuvas. Desses milhões de casos, cerca de 54% aconteceram somente no ano passado. Os dados da defesa civil contabilizam mortos, feridos, enfermos, desabrigados, desalojados, desperecidos e entre outros tipos de danos humanitários. Os casos ocorreram em momentos de alagamento, deslizamentos, inundações e chuvas intensas.

Em 2022, segundo dados da Defesa Civil, 1,5 milhão de pessoas foram atingidas pelas por desastres ambientais relacionados a fortes chuvas na metrópole do Rio. Foram 85 mortos, 358 feridos, 203 desaparecidos, 1994 desabrigados e 15.365 pessoas desalojadas. 


E quando não precisa de chuva para alagar? 

A comunidade de Rio das Pedras fica localizada na Zona Oeste do Rio, entre o Parque Nacional da Tijuca e a Lagoa da Tijuca. O rio que dá origem ao nome do local é também uma das principais pautas de luta entre os moradores. Em períodos de ressaca, apenas a agitação do mar já é o suficiente para as águas trazidas pela lagoa invadirem as ruas da favela, mesmo sem chuva. Esse fator geográfico ligado a falta de drenagem e sistema de esgotamento, faz com que o rio assoreado fique ainda mais propício a transbordar.

 

O esgoto a céu aberto e constantes alagamentos prejudicam a saúde e estrutura das casas de quem mora na comunidade, principalmente dos que residem nas sub-regiões Areal e Areinha. As localidades são as menos urbanizadas de Rio das Pedras e tem origem pantanosa, de solo hidromórfico, devido a proximidade ao rio e à lagoa. . (Rua dos Limões, Areinha | Foto: Rony Saavedra Guimarães)

Dona Rosangela Silva, de 44 anos, é moradora de “RP”, como gosta de chamar a comunidade, desde 1999. Ela acompanhou de perto o crescimento desordenado da favela e há um ano tem enfrentado um problema de saúde por conta dos alagamentos. Com a rotina, ela acabou sendo contaminada por uma bactéria na perna e precisou ficar dezoito dias internada. Com feridas e muitas bolhas, Rosângela passou por um tratamento intensivo para evitar que a bactéria chegasse até seu coração. 

Era como se eu tivesse enfiado a perna no fogo, ficou cheia de bolha, eles colocaram manta para ajudar. Até hoje não uso mais vestido no joelho, a perna ficou com uma cor bem diferente da outra. Aqui o certo é andar de tênis sempre porque a gente nunca sabe como vai tá a rua na volta, nosso esgoto não dá vazão para todo mundo. Esses dias que tem chovido, eu não saio. Tenho medo de pisar na rua. Eu já sabia que a água daqui era preocupante agora ainda mais. Aqui não era um lugar para a gente estar morando, mas como não temos outro vamos ficando por aqui”, completou a dona de casa.  

As regiões também estão apenas a dois metros do nível do mar, tendo sido aterradas pelos próprios moradores. Com a subida da maré e a falta de escoamento do rio, é comum que o local alague com frequência. Rosangela conta os prejuízos que essa rotina causa para a família.

“Tem dias que não deixo meu mais novo, de 14 anos, ir para escola porque não sei se vai ter como ele voltar. Tenho medo. Há três anos atrás uma enchente dessas invadiu nossa casa, ficamos com água até o joelho. Minha cama virou um barco. Desde então não compro mais móveis aqui para casa, só adaptei o que já tinha. Todos os moradores aqui já passaram por isso. Aí hoje prefiro investir em outras coisas para também não ficar triste de ter que jogar fora”, explicou Rosângela.

Diante desse cenário, um grupo de moradores da região se reuniu para elaborar a Agenda Rio das Pedras 2030. Formado por jovens pesquisadores e lideranças antigas da comunidade, o grupo tem realizado oficinas itinerantes para acompanhar de perto os maiores problemas enfrentados pela comunidade. A moradora Eloiza Santiago, de 28 anos, faz parte da agenda e conta como o problema de alagamento atrapalha o dia a dia dos moradores; 

“Se eu estiver fora de casa, me preocupo em como e que horas irei chegar, me sinto cansada só de pensar nessa demora. Se eu já estiver em casa quando começar a chover, me preocupo na possibilidade de desabar algum imóvel. É por isso que criamos a Agenda, queremos que esses episódios de injustiça ambiental deixem de ser naturalizados e os moradores possam cobrar a resolução desses problemas a quem deve ser cobrado, o poder público”, afirmou a representante da Agenda Rio das Pedras 2030. 

Papel do poder público no combate à crise ambiental, por onde começar? 

Entendendo a crise climática como um problema interseccional, a Agenda Rio 2030 da Casa Fluminense propõe a criação de uma Secretaria Estadual de Emergência Climática. Esse novo órgão seria responsável por promover adaptação, resiliência urbana, prevenção de enchentes, desabamentos e outros desastres ambientais a partir de um Plano Estadual de Adaptação às Mudanças Climáticas. Atualmente, na Região Metropolitana do Rio, dos 22 municípios apenas Niterói e Rio de Janeiro  possuem secretarias voltadas para o tema de clima. 

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