O que fazer contra enchentes

Texto por
Comunicação Casa
Data
7 de junho de 2022

por Lennon Medeiros*

Cresci achando que o medo que minha vó tem da chuva fosse superstição. Quando chove ela apaga as luzes da casa, acende velas, tapa os espelhos, se senta na cama, tira os óculos e fica em silêncio. Cresci vendo ela fazer isso, então, naturalmente, eu nunca perguntei. Eu só comecei a perceber a profundidade dessa história depois que alguém me falou que a sua vó fazia a mesma coisa, por causa das enchentes. 

Ouvi minha vó contar como foi viver diferentes momentos com as chuvas e os rios, da vida rural até as fábricas da Baixada Fluminense. Ali uma ficha caiu pra mim, e eu comecei a pensar nas ideias e nas estruturas por trás da forma que as cidades lidam com a água. Como essa é uma questão que está desde o começo no nosso drama como espécie, e como essa dinâmica vai se transformando junto com os nossos projetos de engenharia. A água deve ser protagonista do nosso próximo problema social, a crise hídrica.

Antes de participar de uma ação de combate a enchentes eu não pensava nos eventos que eu mesmo passei com chuvas. Carregar minha irmã nas costas com água no joelho, ficar horas ilhado no trânsito, cruzar uma praça com os pedais da bicicleta debaixo d’água, ouvir que a casa de um tio desbarrancou, que os móveis de mais alguém foram pro lixo, era tudo muito natural. 

Em 2013 teve uma chuva marcante em Queimados. O centro da cidade ficou todo debaixo de água. Conheci Ricardo depois dessa enchente, ele perdeu muito, e quase que as cachorras. Por causa desse episódio ele decidiu cursar engenharia ambiental, alguns anos depois fez obras pra sua rua ficar mais capaz de suportar a chuva. 

Nessa rua passa um filete de vala, que já foi um córrego limpo. Não foi preciso cavar muito pra deixar de ser um problema, recuperar as pequenas margens também pode ter ajudado. Isso faz anos. O rio segue sem transbordar, mas Ricardo continua fazendo barragens de terra na frente do seu portão quando chove torrencialmente. 

De 2013 pra cá o ciclo das chuvas mudou, e Queimados foi inundada ano após ano. Em 2020 foi assustador. Um mês antes de começar a quarentena a Baixada Fluminense enfrentou uma série de tempestades. Nessas enchentes, a filha do Ricardo me chamou pra participar de uma ação emergencial. Me juntei a ela e uma centena de moradores que se organizaram voluntariamente para buscar e dar assistência a famílias vítimas das mudanças climáticas.

Essas redes de solidariedade são um gesto daquilo que transcende nossa capacidade de diálogo. Pessoas de diferentes crenças e galeras dedicam cada um a sua habilidade para combater o efeito das enchentes na vida de pessoas e comunidades. Preparam alimentos, limpam casas, arrecadam doações e suportam famílias. Ações mobilizadas com intensidade e urgência, porque são ações emergenciais. Nos últimos anos, o tempo que sobra entre a convocação de um mutirão e outro tem ficado cada vez menor.   

Essa foi outra coisa que eu demorei a entender: a força das chuvas e os desastres ambientais deixaram de ser exceção. Na escola você aprende como se fosse uma coisa abstrata, e na rua as pessoas têm sempre procurado outras explicações. Mas as previsões catastróficas das cientistas, geógrafos e meteorologistas têm se realizado cada vez mais. E nesse jogo entre quem avisa e quem não se antecipa, são as favelas e periferias que saem perdendo suas saúdes. 

As consequências na infraestrutura são fáceis de se perceber, e talvez as mais fáceis de reconstruir. Mas tenho aprendido cada vez mais sobre os verdadeiros efeitos dessas enchentes na vida das pessoas. É duro ver as marcas de doenças que sobem pelo ralo, de refluxos dos canos de esgoto sem tratamento. É difícil de imaginar como deve se sentir uma pessoa que assiste o valão se misturar nos móveis e nas coisas da família. 

Ouvi de uma moradora do bairro Santa Rosa que ela passou a ter ansiedade por causa das chuvas. E com a ansiedade vieram os remédios pra controlar a pressão. Depois de perder os móveis três vezes, ela desistiu de comprar. Decidiu viver somente com um colchão e as roupas em cima de cadeiras de plástico. O Santa Rosa é um bairro onde centenas de pessoas são afetadas com as enchentes novamente todo ano. 

Antes da última enchente a moradora fez o que pode, fez obras no quintal, subiu mais uma vez o patamar da casa. E fez um tipo de arquitetura que é muito comum por aqui: degraus falsos. Uma barreirinha de concreto, na altura da canela, pra impedir a água das enchentes ir de um cômodo pra outro. O que essa moradora está fazendo é reconhecer que essas inundações vieram pra ficar. E se adaptar. Se prevenir. 

Os rios de Queimados transbordam se chove 40mm em uma hora ou 80mm em 24h. No primeiro final de semana de abril choveu 180mm em seis horas. Mais do que o dobro do que a cidade é capaz de suportar hoje. Uma chuva que tem se repetido todos os anos, que a meteorologia avisou, serão o novo padrão pros próximos anos. Podemos esperar chuvas iguais ou piores, por isso precisamos aumentar em milímetros a capacidade de residência das nossas cidades. 

A ação dos moradores nas suas casas e o suporte das redes de solidariedade responde às consequências. Precisamos fazer alguma coisa contra as causas. Entendendo o que dá pra fazer esse ano, o que precisamos fazer em cinco anos e o que precisamos fazer em trinta. Nós estamos enfrentando um movimento de mudança no ciclo climático, você nota na pele que as coisas estão diferentes. Precisamos aprender a lidar com isso. 

Falar de resiliência climática é dizer que nossas comunidades precisam de um plano pra suportar as chuvas. Nós precisamos olhar pros nossos espaços e tentar entender como a gente adapta as coisas pra viver bem, pra evitar sofrimento. Essa moradora do Santa Rosa me contou que durante oito anos não tiveram enchentes, depois que aconteceu uma grande dragagem no Rio Queimados — que cruza a cidade de ponta a ponta — no começo dos anos 2000. Antes da obra ela passava por muitas enchentes, depois da adaptação só voltou a acontecer em 2013. 

Não é só Queimados que está passando por isso, nem mesmo é só o Brasil. Tem uma série de coisas sendo feitas nas cidades vizinhas, e também mundo afora, experiências que podem nos ensinar, instigar nossa criatividade e nos encorajar a combater a morte lenta que é provocada pelo racismo ambiental. Sistemas de pequenas barragens que acumulam água diminuindo a velocidade de escoamento, bombas que desviam água para reservatórios subterrâneos. 

Mas a impressão que eu tenho é que, aqui em Queimados, um arroz com feijão resolvia. Porque, circulando entre os bairros, você vê que muito do que acontece no centro é consequência de um rio com as margens desbarrancando numa periferia. E que muito dinheiro de obra e cesta básica poderia ser economizado com a reconstrução de margens. De quebra ainda deixa o lugar com um outro visual, incentiva as pessoas a viverem melhor os espaços perto de casa. 

São propostas que tem fundamento, exemplos bem sucedidos e dispositivos eficazes pra serem postos em prática pela administração pública. Ideias de Justiça Climática que foram defendidas pela Casa Fluminense na nova Agenda Rio 2030.

Hoje a Prefeitura de Queimados e o Governo do Estado do Rio de Janeiro tem dinheiro em caixa pra ir bem além disso. Só aqui na cidade são quase R$100 milhões de verba da concessão da CEDAE. Dinheiro que vem sem compromisso, pra gente fazer o que bem entender como prioridade. 

O governo de Queimados apresentou uma carta de intenções pra esse orçamento. Agora é a nossa vez de escrever as nossas. Pra onde você acha que deveria ir esse dinheiro público? Acredito que precisamos pensar nisso juntos, combinar ideias, porque isso é nosso, assumindo a responsabilidade de levar a prioridade aonde ela precisa estar. 

É uma decisão fácil, não tem disputa na história. Reescrever essa harmonia, vai além de buscar justiça entre os diferentes moradores da cidade, como também nos projeta às práticas mais importantes e bem-vistas da sociedade internacional. Quem não prefere viver numa cidade arborizada, com lugares pra ficar à beira do rio e um ar limpo de respirar? 

Nós já mandamos muito bem em reformar nossas casas. Essa é a oportunidade de experimentar, fazer um acordo entre vizinhos e construir uma cidade ecológica. Pra aproveitar melhor o nosso espaço, e mais do que economizar, ainda gerar uma renda com o trabalho de adaptação e iniciativas pra melhorar a qualidade de vida. 

Temos muito o que sonhar e planejar pro futuro que queremos construir nos nossos territórios e temos que tentar diariamente materializar pedaços dessa invenção. Ainda nesse mês de junho a Agenda Queimados 2030, que se reuniu pra combater os efeitos, vai voltar a defender no Conselho de Defesa Ambiental que a verba da CEDAE seja utilizada em ações de combate as enchentes e resiliência climática. É até bonito de pensar em devolver pra água o que veio da água. 

* Lennon Medeiros é da comissão de Crise Hídrica do Conselho Estadual de Direitos Humanos e conselheiro de Defesa do Meio Ambiente de Queimados. Cursa Ciências Sociais pela UFFRJ e Letras pela PUC-Rio. É assessor de mobilização da Casa Fluminense e pesquisa tecnologias sociais na Visão Coop.

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