Honório Gurgel, convite ao abraço

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Texto por
Victor Hugo Rodrigues
Data
29 de novembro de 2014

Eu moro no antigo conjunto residencial do IAPI (Instituto de Aposentadorias e Pensões dos Industriários) de Honório Gurgel, um dos maiores sucessos quando nos referimos às políticas públicas voltadas para habitação popular no Brasil. Construído nos anos 40, pelo governo do então presidente Getúlio Vargas, este conjunto não teve como objetivo uma higienização das áreas ricas da cidade do Rio de Janeiro, mas a ocupação de uma região agrícola que começava a receber suas primeiras indústrias. Com casas térreas e apartamentos de até dois andares, quintais grandes e muros baixos, sua arquitetura é um convite ao convívio.

Falar em edificações da Zona Norte é uma coisa bem interessante, pois elas parecem nunca ter fim. Com gerações de famílias vivendo nas mesmas casas, elas vão crescendo a cada nascimento, para cima ou para os lados, sempre abrigando mais um, como coração de mãe. Acabam sendo reflexo do meu povo e da minha cultura, que vive em um território de essência feminina, recheado de afetos e cuidados.

Destas misturas afetivas surgiu um jardim, carinhosamente chamado de Jardim da Amizade. Ele fica em uma das extremidades do antigo IAPI de Honório Gurgel, beirando a linha férrea auxiliar e paralela à Estrada João Paulo – principal via rodoviária de entrada e saída do bairro.

Nos anos 80, a mobilização dos moradores, receosos com os alto índice de acidentes, obteve a construção de um muro que separasse a linha férrea do Conjunto. Feito o muro, os vizinhos decidiram transformar a área que cheia de mato e lixo em um Jardim, que já passa de sua terceira década. Em 2013, o Coletivo Honório Gurgel mobilizou um novo mutirão para replantar a área e decorar o muro com grafite. Hoje, ele é um dos lugares que mais amamos no mundo, tanto que passamos a utilizá-lo como equipamento de cultura, transformando-o sazonalmente em sala de cinema, casa de shows musicais, espaço de exposições fotográficas e permanentemente em uma gigantesca galeria de grafite, que chama atenção de quem passa. Motivos para encontros não nos faltam! Todos este espaço multiuso é aberto, sem muros ou divisões, com atrações gratuitas.

Além do Jardim, outros poderosos equipamentos culturais foram identificados: os botequins. São neles que boa parte da população local se reune para seus momentos de entretenimento e celebração. Há alguns meses, um deles passou a receber o Um Tal de Sarau, evento que reúne uma galera do amor pra ninguém botar defeito. São pessoas de diversas gerações, gente de dentro e de fora do bairro. Nenhuma delas preocupadas com a falta de recursos ou espaços, mas com a exaltação à abundância criativa que, como em pouquíssimos lugares, Honório Gurgel tem de sobra.

Honório Gurgel é o meu lugar: simples e cheio de afeto, é um convite ao abraço!

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