O meu lugar

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Texto por
Associado Casa
Data
16 de dezembro de 2013

Por Ana Claudia Souza*

Chapolin faltou ao trabalho alguns dias, porque estava ocupado demais andando pela vizinhança, vendo quantas pessoas – entre adultos e crianças – moravam em cada casa, e do que precisavam. Bambu perdeu tudo quando a água entrou na casa dele, não sabia se chorava ou consolava a família e os vizinhos. Pegou as rãs que vieram do rio e fez sopa para comer naquela noite em que sobrou muito pouco, quase nada. Koih não perdeu nada, mas foi para lá ajudar o amigo e viu quando prepararam a sopa de rã, que alimentou várias pessoas. Era o que tinham naquela madrugada. Victor pegou o irmão, Thiago, e foi ver o tamanho do estrago que a chuva fez onde moram vários amigos. Voltou apavorado, triste e também decidido a ajudar de alguma maneira. Marcelo, quando viu Chapolin tocar sua campainha pedindo alimentos para os desabrigados da beira do rio, reconheceu o garoto que tinha grafitado o muro dele, e decidiu ajudar, porque gostara do serviço.

Chapolin, Bambu, Koih, Victor, Thiago, Marcelo são parte de uma história de desespero e solidariedade, tristeza e esperança, descaso e atitude, esquecimento e amor. Moradores de Honório Gurgel, separados por uma das inúmeras fronteiras reais ou imaginárias existentes no bairro, a Estrada João Paulo, na tarde daquele sábado, estavam todos do mesmo lado, servindo cachorro-quente com a maior alegria para quem ainda contava prejuízos difíceis de calcular. Num lugar às margens de um rio poluído e assoreado (cujas obras de dragagem duram mais que o suportável, consomem mais recursos que o aceitável e aparentam não dar resultado algum), de saneamento básico praticamente inexistente, ruas sem asfalto, ‘movimento’ presente, a solidariedade de vizinhos que se organizaram para prestar socorro às muitas famílias atingidas pela cheia do Rio Acari fez toda a diferença. E esse grupo era apenas um dos que circulavam por essa parte de Honório Gurgel, em busca de quem estivesse precisando de ajuda para se recompor, depois da enchente de 11/12/13.

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Este cenário desolador deu a tônica do sábado, 14/12. Dia marcado para acontecer o II Mutirão de Plantadores em Honório Gurgel. Não sem alguma hesitação, foi mantida a convocação para se plantar no jardim às margens da linha férrea, ao longo da Rua Serinhaém, dando sequência ao que já tinha sido realizado no sábado, 03/11. Mas com o cenário de uma parte do bairro transformado pela ferocidade da cheia, no horário previsto para a realização da oficina de enfeites para decoração de Natal nas árvores, decidiu-se por distribuir as cestas básicas, organizadas com base no mapeamento das famílias feito pelo Chapolin, nas andanças que fez pela vizinhança, querendo descobrir quem precisava do quê. A casa do Victor, que faz com leveza a mobilização para os mutirões, foi transformada em QG de arrecadação de donativos, e uma turma de gente virou noite para organizar as cestas, botando em cada saco nome e endereço para onde cada porção de alimentos se destinava, tomando por base o censo informal – e super eficiente – de Chapolin e seus amigos. Viraram a madrugada, organizaram as sacolas, saíram de manhã para fazer a distribuição, com uma organização que impressionou os agentes da prefeitura, que zanzavam por becos e vielas, tentando, sem tanto sucesso, chegar a quem precisava. Ao ver a turma chegando aos atingidos pela chuva, chamando as pessoas pelo nome, e indo aos endereços corretos, os funcionários municipais queriam saber que instituição, igreja, associação era aquela… “Somos vizinhos”, resumia o Victor, numa simplicidade e objetividade desconcertantes. Em determinado ponto, os agentes de saúde resolveram entregar a ele folhetos com instruções para quem teve contato com a água da chuva ir procurar atendimento médico no posto avançado instalado na Vila Olímpica. O medo é a disseminação de doenças que vêm da água podre, infectada que entrou por baixo das portas, pelas janelas, atingiu quase (às vezes até mais) 1 metro de altura, destruiu geladeiras, fogões, inutilizou colchões, sujou as roupas, ameaçou vidas. Quanto antes tomarem antitetânica, fizerem exame de sangue, forem vacinados, melhor. O risco de uma epidemia de diarreia, tétano e outros males se alastrarem por aquela região é real.

A turma providenciou lanche, distribuiu cestas básicas, atendeu ao pedido da Secretaria Municipal de Saúde, empurrou carrinhos que pediu emprestado aos comerciantes, conversou com moradores, alegrou crianças, acalmou mães e ainda cumpriu a missão original do dia, convocada via rede social e por faixa na rua: continuar a cuidar do jardim, ele mesmo fruto de uma mobilização que data dos anos 80, quando as associações de moradores e donas de casa estavam no auge no Rio de Janeiro. Naquela época, o conjunto do antigo IAPI lutava para ter um muro que separasse a Rua Serinhaém da linha do trem. Quando a obra finalmente foi feita, a decisão dos moradores foi transformar aquela área, até então tomada por um matagal salteado por lixeiras a céu aberto – resultado de um hábito terrível que ainda grassa, o de despejar lixo na rua, a despeito da regularidade da coleta feita pela Comlurb três vezes por semana. O medo era real: que o muro fosse feito de apoio para barracos que poderiam surgir da noite para o dia, numa ocupação irregular, que, uma vez feita, seria dificílimo de reverter. Mutirões de limpeza, almoços comunitários e plantação de árvores nos espaços comuns foram alternativas encontradas pelos moradores para não deixar degringolar aquela área, na porta de casa. O resultado pode ser visto hoje, admirando as árvores frondosas que existem ao longo de toda a extensão da Serinhaém. Foram fruto do trabalho organizado, coletivo e solidário de pessoas que, por vezes, (con)vivem ali há mais de 60 anos, quando o conjunto foi inaugurado, no fim dos anos 40.

Não é  – nunca foi – fácil mobilizar pessoas. Mas é muito fácil contar com a solidariedade delas – como foi ao longo dessa semana fatídica, em que o Rio de Janeiro amanheceu embaixo d’água, com estragos distribuídos por todo lado. Parte invisível dessa linda Cidade Maravilhosa, o Rio Acari se impôs tragicamente no cenário do caos, ao render imagens impressionantes, divulgadas em telejornais e compartilhadas também por moradores que tomaram as redes sociais para mostrar aquilo que a cidade desigual teima em não ver. Com IDH baixo, espremido entre a linha do trem, a Avenida Brasil e o Rio Acari, vizinho de indústrias poluentes, cercado por bairros com infraestrutura igualmente precária, e vivendo uma tensão constante provocada pela presença mais ou menos discreta e violenta do ‘pessoal do movimento’, Honório Gurgel – especialmente a parte do bairro onde fica o conjunto do antigo IAPI – tenta achar seu lugar no mapa do Rio de Janeiro, diferente daquele em que se acostumou a ocupar: o de não lugar. A tragédia, a falta, a precariedade estão lá, mas dividem espaço com o que surge a partir de pessoas mobilizadas, nada indiferentes, que têm fortes laços de afeto entre si e o seu lugar.

Há muito em comum com os mutirões dos anos 80, ao mesmo tempo em que agora a característica é totalmente diferente. Se antes a mobilização era através das associações, hoje eles se chamam de coletivo. Também impressiona a quantidade de jovens envolvidos agora. São eles que organizam o mutirão, mobilizam os amigos, e fazem tudo com alegria e dedicação. Eles têm menos fronteiras. Conhecem gente de todos os lados desse bairro pequeno, mas tão segmentado; andam atentos, mas sem medo pelas ruas, os becos, as vielas; não ignoram o tráfico e sabem lidar com essa realidade, com aquela sabedoria de quem cresceu tendo que desenvolver essa habilidade. Mais: eles circulam pela cidade, eles são criativos, eles estão conectados pelas redes sociais, eles mobilizam amigos de outras periferias, eles têm a energia da mudança, eles querem – e eles vão – melhorar o seu lugar.

São utópicos, como foram outros antes deles. Como, por exemplo, Dona Zuleika, que um dia teve a ideia de construir uma gruta em homenagem a Nossa Senhora Aparecida, no mesmo lugar onde, antes do muro, havia uma lixeira a céu aberto. Saiu o lixo, entrou o jardim. Dito assim, parece simples, mas levou anos para se conseguir fazer alguns vizinhos pararem de jogar lixo quase na porta de casa. Ainda hoje, esta senhora, agora com 87 anos, continua reunindo semanalmente na sua cozinha outras vizinhas, ainda remanescentes da Associação das Donas de Casa de Honório Gurgel – muitas mães, avós ou bisavós dos garotos que hoje se mobilizam pelos coletivos conectados por celulares e 3Gs (a internet fixa é um caso sério em Honório).

Chapolin, Koih, Bambu, Victor, Thiago – todos na casa dos 20 anos – também chamaram Mono Telha, Vinicius, Careca, Bromélio, uma turma de gente de outras periferias e subúrbios do Rio, que sai pela cidade numa espécie de ativismo verde, decididos e dedicados a tornar áreas abandonadas, terrenos baldios, encostas de morros, favelas e comunidades em lugares mais frescos, mais bonitos, mais floridos, mais frutíferos. Mono Telha, que mora em Brás de Pina, e Vinicius, de Santa Teresa, fazem parte do movimento Planta na Rua RJ, que orienta a plantação em Honório Gurgel. Careca faz na laje de sua casa na Favela do Arará, em Benfica, o que ele chama de Teto Verde Favela, que espalha plantas resistentes ao sol sobre a chama de amianto que cobre o telhado. Conta com a consultoria de Bromélio, que é botânico, morador de Niterói, e também tem o dedo verde. Gente de dentro e de fora de Honório, gente que se conhece e se organiza via rede social, que decidiu inventar uma forma nova de viver, em relações que preservam aquele velho conhecido nosso, o afeto. Vai ter mais mutirão. Vai ter mais plantação. Vai ter mais verde. Vai haver menos lixo. E se você quiser participar, será muito bem-vindo ao nosso lugar.

*Ana Claudia é jornalista, filha da Dona Zuleika e associada da Casa Fluminense.

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