Nota Pública Violência Policial

Categorias
Texto por
Comunicação Casa
Data
21 de junho de 2013

Nota de 21/06

A Casa Fluminense é uma organização nova, dedicada a promover a redução de desigualdades e o aprofundamento democrático no Rio de Janeiro. Desde a sua criação, em fevereiro, vimos nos dedicando a criar uma rede de interlocução e ação coletiva voltada a toda a capital e à região metropolitana e a elaborar em conjunto uma pauta de propostas para fazer frente aos desafios presentes da construção pública inclusiva, participativa e universalizante no Estado.

Neste período, e por princípio de atuação, buscamos o equilíbrio e consequência nas manifestações públicas, buscando a formação sólida de uma pauta compartilhada, fortalecendo a ação dos associados da Casa e contribuindo para fortalecer a ação pública por um Rio melhor, porque democrático e para todos.

Mas os acontecimentos de ontem à noite no centro da capital não permitem pecar pela omissão. Não é possível deixar passar em branco a violência policial desenfreada, perseguindo indiscriminadamente a quem estivesse na rua. Nem é possível silenciar diante da opção por buscar no dia seguinte, com o aval das autoridades, atribuir toda a responsabilidade ao suposto imperativo de reagir à ação criminosa de cidadãos. Este é o modelo perverso de uso da força nas ruas e de comunicação pública posterior tristemente consagrado na pior rotina da ação policial em comunidades populares da cidade e do Estado, e será um dano irreparável para a nossa vida democrática deixá-lo estender-se para a forma de lidar com manifestações populares.

Não é preciso frisar o repúdio igualmente a atos de violência ou vandalismo contra o patrimônio público – este é presumível, como o é a atribuição policial de contê-los. Mas ontem não foi de fato isso o essencial: a ação policial, ao contrário, alimentou o conflito e sob o manto da iluminação pública desligada e da ausência de câmeras jornalísticas o estendeu a todos que ali estavam, e agora alimenta-se dele para justificar-se. Exatamente como historicamente vimos acontecer nas favelas da cidade, e imaginávamos poder estar caminhando para deixar de ver.

Hoje, com tudo mais que há para assimilar, demandar e ponderar com lucidez no país agora, precisa ser dia de afirmar isso com clareza no Rio. A Casa Fluminense sente-se assim no dever de fazê-lo e estimular para que se faça, ao lado de todos os demais esforços pelo aprimoramento das instituições e políticas de segurança pública, pela mobilidade urbana e pela ampliação de oportunidades sociais e democráticas a que mais do que nunca precisaremos seguir dedicados.

Nota de 25/06

Não era definitivamente desejável ser preciso voltar tão rapidamente ao assunto.

Na sexta passada, publicamos aqui nota crítica à ação da polícia diante das manifestação de quinta, no centro da cidade. Nela, como muitos fizeram, apontamos a triste similaridade entre o padrão de brutalidade adotado na ocasião e aquele empregado historicamente na pior rotina da ação policial em comunidades populares da capital e do estado. Não seria possível imaginar que o paralelo seria exposto de forma tão emblemática, tão poucos dias depois.

A diferença, incomensurável, é conhecida, e tem sido também observada por todos: nas favelas, as balas não são de borracha. Na Maré ontem, mais uma vez, várias vidas se perderam, outras tantas foram comprometidas pelos ferimentos. E o Rio viveu outra triste demonstração da distância que nos separa de mudanças sólidas e universais nas formas de atuação das suas instituições policiais, no tratamento igualitário a seus cidadãos e no preparo dos seus agentes públicos para isso. Mais que isso, viveu no intervalo de uma semana a lembrança dura de que estamos longe de desfazer-nos da barbárie como elemento da vida coletiva, nesses episódios e no cotidiano de áreas menos visíveis em toda a metrópole e o estado.

Fica aqui a nossa solidariedade aos familiares das vítimas do confronto e a todos os moradores da Maré, só podendo esperar que tudo isso sirva também para lembrar com clareza a todos do imperativo de avançar com reformas de longo alcance nas nossas polícias, muito além daquelas já alcançadas.

Por Daniela Fichino

Por Daniela Fichino

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