Diversidade e Cinema Brasileiro

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Texto por
Associado Casa
Data
12 de dezembro de 2019

Para falar de democratização do cinema é preciso pensar qual é o público que tem oportunidade de acessar uma sala, a representatividade dos profissionais envolvidos na produção, a distribuição e o consumo das obras pelo Brasil. A última pesquisa publicada pela ANCINE em 2016[1], mostra a ausência de profissionais pretos e principalmente de mulheres em posições de autoria ou comando das produções cinematográficas, fato que diz muito sobre o racismo e o machismo presentes nas relações de produção e nas telas brasileiras. Com base nos 142 longas-metragens brasileiros lançados comercialmente em salas de exibição naquele ano, o estudo mostra que são dos homens brancos a direção de 75,4% dos longas. As mulheres brancas assinam a direção de 19,7% dos filmes, enquanto apenas 2,1% foram dirigidos por homens negros. Nenhum filme foi dirigido ou roteirizado por uma mulher negra. Ser uma mulher negra no cinema passa pelo desafio de que esse corpo social provavelmente será o único num set de filmagem ao mesmo tempo que essa representatividade é importante para que outras mulheres negras sejam encorajadas a pensar que devem ocupar esses lugares.

Como pensar a perspectiva democrática no cinema sem falar em diversidade de público e dos profissionais que atuam na cadeia de produção do setor ou nos diferentes lugares de fala? Esse olhar crítico é fundamental para estabelecer uma evolução na forma de se contar histórias e de pensar retratos de personagens por vezes estereotipados ou invisibilizados nas telas. Os preconceitos estabelecidos nas relações sociais e o racismo estrutural são questionados quando se tem contato com outras narrativas, com novas representações sobre a realidade e outras formas de retratar, de pensar e ver o outro.

Nos últimos anos houve uma pequena, porém notável, ascensão de negras, indígenas, LGBTQI+, periféricos, pobres, ou portadores de necessidades especiais, dentro das universidades. Essas pessoas retornam para a sociedade com filmes questionadores, cineclubes e projetos que levam o cinema para quem não tem acesso às salas comerciais. No Brasil, 30%[2] da população urbana e 56% da rural ainda não tem acesso à internet e as 3.347[3] salas de cinema estão espalhadas desigualmente pelos 5.570[4] municípios do país, uma vez que estão concentradas 416 cidades[5]. Esses dados mostram o quanto a ida ao cinema é uma atividade que poucos tem o direito de exercer.

A democratização do acesso ao cinema passa por um conjunto de fatores. Vai desde ver em cartaz filmes com ideias e críticas diferentes, ter salas cheias de pessoas diversas podendo ter acesso a novas representações sobre a realidade, ter filmes feitos por indivíduos, empresas e regiões não-hegemônicas e, sem dúvidas, ter espaços para formações e debates. É fundamental entender alguns aspectos que rodeiam a prática do cinema, como por exemplo, uma ideia de filme pode ser concretizada também por mãos de mulheres negras e indígenas. A indústria do cinema está inserido num mercado que gera emprego, renda e cujos profissionais sustentam famílias. A produção de Bacurau empregou em torno de 800 pessoas e muitos outros filmes fazem o mesmo. A experiência cinematográfica vai além das tradicionais salas de cinema e as ações de difusão de filmes e cineclubes devem ser valorizados porque estão presentes em lugares do Brasil não alcançados pelo circuito comercial de cinema.

Estreia do documentário Nosso Sagrado no Circo Voador. | Foto: Ian Cheibub

Ao mesmo tempo observa-se o advento de experiências e eventos como o Encontro de Cinema Negro Zózimo Bulbul, Femina, EGBÉ, MIMB, Tudo Sobre Mulheres, Assim Vivemos (de Acessibilidade ao público portador de necessidades especiais), do Cineclube Atlântico Negro, do FICINE, muitos deles com mais de uma década de atividade. Essas ações retratam iniciativas da sociedade civil de pautar espaços de difusão de obras já existentes e que não tinham espaço nas salas comerciais. O exemplo do Encontro de Cinema Negro Zózimo Bulbul, iniciado em 2007 com a criação do Centro Afrocarioca de Cinema, no Rio de Janeiro, demonstra em sua 12ª edição o crescimento do protagonismo de pretas e pretos produzindo cinema autoral afrocentrado, demonstrando ao mercado audiovisual que existem profissionais preparados técnica e artisticamente para atuar nesse setor.

Naira Évine – Documentarista e Mestranda em Cinema pelo Programa de Pós Graduação em Cinema e Audiovisual, Universidade Federal Fluminense.

Clementino Junior – Cineasta, Doutorando em Educação (GEASur/UNIRIO), Educador Audiovisual e Fundador do CAN – Cineclube Atlântico Negro.

Fernando Sousa – Cineasta e diretor executivo da Quiprocó Filmes.


[1] Pesquisa diversidade de gênero e raça no mercado audiovisual https://www.ancine.gov.br/pt-br/sala-imprensa/noticias/ancine-apresenta-estudo-sobre-diversidade-de-g-nero-e-ra-no-mercado

[2] Dados da TIC Domicílios 2018 https://www.cetic.br/media/analises/tic_domicilios_2018_coletiva_de_imprensa.pdf

[3] Dados Salas de Cinema da Ancine em 2018 – https://oca.ancine.gov.br/sites/default/files/repositorio/pdf/informe_salas_de_exibicao_2018.pdf

[4] Dados do IBGE – https://cidades.ibge.gov.br/brasil/panorama

[5] Dados Salas de Cinema da Ancine em 2018 – https://oca.ancine.gov.br/sites/default/files/repositorio/pdf/informe_salas_de_exibicao_2018.pdf

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