CRÔNICA: “Experimentar a metrópole”, por João Felipe Brito

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Texto por
Joao Felipe Brito
Data
30 de março de 2015

O morro da Formiga, na Tijuca, quase sempre lembrado pela escola de samba Império da Tijuca ou pelo tráfico de drogas, é um desses recantos da metrópole que preservam e constroem maravilhas, e que a cidade cheia de planos por realizar pouco conhece, quase não vê, não se aproxima.

Por lá, admira-se uma das últimas manifestações cariocas da Folia de Reis, tradição que acabou de ser celebrada nas ruas e ladeiras daquele simpático pedaço tijucano. Também por lá se vê uma das mais bem sucedidas experiências de reflorestamento na cidade. Onde antes se tinha área seca para usos espúrios, hoje tem-se pitangueiras, goiabeiras, abacateiros, para usufruto de todos.

Não há mais deslizamentos naquela área, as fontes d’água do morro se renovaram e a qualidade da água está melhor. O mesmo processo virtuoso se percebe no morro da Babilônia, no Leme, com imagens que inspiram qualquer desavisado.

No Gericinó, bairro criado para circunscrever o maior complexo penitenciário do país e o único aterro sanitário da capital, uma família maranhense preserva e expande o Bumba-Meu-Boi, fazendo daquele Rio de Janeiro escondido um espaço de encantarias, fitas coloridas, crianças em profusão apaixonando-se pela dança do Boi, pelo ritmo das palmas, pelo balanço do viver.

Em Piabetá, já no município de Magé, quase no pé da serra, lá onde a linha férrea mais antiga do país ainda recebe trens movidos a óleo diesel, um grupo de antigos moradores resolveu limpar um terreno baldio, o cercou encravando no chão pneus que outrora seriam jogados em rios e córregos, e plantou mudas de hortelã, aroeira, boldo, capim-limão, espinheira-santa.

Agora, nesse espaço renascido, além do uso comum dessas plantas medicinais por qualquer um que por ali passe, pululam brincadeiras, festas, molecada se esbaldando em suas primeiras voltas de bicicleta. Processo semelhante é visto em Honório Gurgel, Coelho da Rocha, Senador Camará, Engenho da Rainha, Vidigal…

Em Santíssimo, o mais crocante, farto e bem temperado bolinho de aipim de toda a metrópole está bem ali, nas margens da Avenida Brasil, pronto para receber os viajantes à procura de um faminto descanso nas chegadas e partidas. Nos fins de semana, o vai e vem na entrada do restaurante é tanto que, por vezes, há filas de carros querendo por ali encostar. Há quem diga que aquela massa de aipim dá sorte na estrada, protege as caronas, abre os caminhos de quem pretende ir longe.

Em Vista Alegre (e, por vezes, na Pavuna), o cine-clube “Subúrbio em Transe” segue alimentando e instigando uma juventude desejosa de novos e diferentes produtos culturais. Gerações se formaram ali, falanges de produtores culturais multiplicaram-se ali. Em Duque de Caxias, o cine-clube “Mate com Angu” cumpre o mesmo papel, assume a mesma vanguarda, excita e dignifica públicos semelhantes.

Há muitas e pequenas belezas em cada curva ignorada dessa cidade. Há muita gente enraizada ao redor da Guanabara inventando bairros, ruas, mesas e calçadas, praças e descampados, com as ferramentas mais indispensáveis para um inventor triunfante: o cuidado, o capricho, o desejo do agrado.

Os vazios urbanos ficam apenas onde o olhar da gente se viciou, onde o medo do desconhecido nos imobiliza, onde as pernas e pensamentos caminham por comodismo e presunção. A cidade vence é na andança desinibida, na vontade de experimentá-la aos pedacinhos, com a paixão e o riso bobo tão comuns aos primeiros e inesquecíveis encontros.

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