Mulheres da Baixada lançam Cartografia Social

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Texto por
Aline Souza
Data
4 de abril de 2018

No último dia 28 de março foi lançada a Cartografia Social – O Impacto da Militarização na vida das mulheres da Baixada Fluminense. A publicação é fruto de diversas oficinas realizadas entre os meses de outubro e dezembro de 2017, onde participaram 10 mulheres que representaram pelo menos 6 municípios da região (Nova Iguaçu, Duque de Caxias, Mesquita, Nilópolis, Belford Roxo e São João de Meriti). Elas utilizaram ferramentas de mapeamento e georreferenciamento para identificar violações de direitos humanos praticadas principalmente por agentes do Estado contra moradores e moradoras da Região Metropolitana do Rio de Janeiro. Os resultados apontam a total ausência das garantias de direitos e a presença cotidiana de fenômenos sociais ligados ao machismo, racismo e à lógica bélica da violência.

A cartografia faz parte do projeto Mães e Familiares Vítimas da Violência Policial na Linha de Frente, uma proposta do Centro de Direitos Humanos da Diocese de Nova Iguaçu em parceria com a Rede de Mães e Familiares Vítimas da Violência de Estado na Baixada Fluminense e o Fórum Grita Baixada. A ideia é potencializar e qualificar essa rede para o exercício do controle da atual política de segurança pública com ênfase na Baixada. O grande diferencial do projeto é dar voz para as mulheres, vítimas que já estão criando suas próprias estratégias de enfrentamento da violência cotidiana, da violência policial e da violência praticada pelos grupos de milícias na região.

 

“Nós, mulheres da Baixada, aprendemos juntas o conceito de cartografia social e vimos que ele é fluido, um processo de autoafirmação envolvendo práticas de mapeamento geográfico, percepções, registros, coleta de informações, trocas e vivências compartilhadas a partir de subjetividades”, diz a publicação que foi elaborada de modo coletivo. “Ser mulher aqui na Baixada é um ato de resistência e através da cartografia de nossas vivências conseguimos visualizar o impacto desses processos em nossas vidas”, declaram as mulheres.

É sabido que a área metropolitana apresenta as taxas de homicídios mais alarmantes de todo o estado do Rio, no entanto um levantamento da Federação das Indústrias do Estado em 2016 aponta que a Baixada Fluminense é responsável por 14% de todo o PIB do Rio de Janeiro, com grande potencial e vocação econômica, sem razão para tamanho abandono de políticas públicas e miséria de sua população.

 

As participantes das oficinas apontaram que para além da violência letal, ocorre a violência de gênero e o seu impacto pode ser verificado nos dados do Instituto de Segurança Pública – ISP do mesmo ano, quando 10.652 mulheres sofreram lesão corporal dolosa na Baixada – quando há a intenção de causar dano corporal ou agredir a vítima, o que equivale a uma taxa de 24% das ocorrências de mesmo tipo em todo o estado do Rio (44.693).

Em 2015 Nova Iguaçu ocupava o primeiro lugar no rancking de violência contra a mulher e Duque de Caxias o segundo, posições que se inverteram no ano de 2016. Naquele ano, foram 6.253 casos em Caxias e 6.047 em Nova Iguaçu. No total são 28.765 casos de violência contra a mulher na Baixada, que vai de homicídio doloso, tentativa de homicídio – feminicídio – lesão corporal dolosa, estupro, ameaças, injúria e difamação, constrangimento ilegal, assédio sexual, violência sexual, psicológica entre outros tipos.

“A cartografia social é uma fermenta de incidência capaz de unir mulheres de contextos sociais distintos construindo juntas um saber não acadêmico que é refletido em dados gerados por elas mesmas”, afirma Marcelle Decothé, integrante do Fórum de Juventudes do Rio de Janeiro e mestranda no Programa de Pós-graduação de Políticas Públicas em Direitos Humanos da UFRJ, que acompanhou as mulheres e assessorou todo o processo.

Para Fransérgio Goulart, especialista em políticas e programas de Direitos Humanos e juventudes e um dos idealizadores do projeto, “a Cartografia Social é uma ferramenta para disputar narrativas a partir da perspectiva dos oprimidos e violentados. Trata-se de construir uma narrativa contra hegemônica”, afirma.

A cartografia também aponta como constante as ocorrências derivadas do machismo que vão desde a sensação de insegurança das mulheres quando utilizam o serviço público e privado dos seus municípios, como a retirada de oportunidades no ambiente de trabalho formal, o assédio no transporte público e a ausência do direito de ir e vir em seus territórios.

 

“O que significa a militarização para nós”?

Enfrentamento violento;
Cerceamento de direitos básicos;
Quando deveriam nos proteger, nos massacram;
Falsa segurança;
Pé na porta;
Poder coercitivo;
Cobrança de taxas;
Controle do acesso;
Força bruta – uso abusivo do poder;
Tortura psicológica.

A publicação Cartografia Social – O Impacto da Militarização na vida das mulheres da Baixada Fluminense contou com o apoio da Fundação Heirinch Böll Stiftung.

Confira também o artigo Cartografando vivências na Baixada cruel, de Marcelle Decothé, da Anistia Internacional.

Cartografia Social Mulheres da Baixada

Circuito Mulheres Mobilizadas da Baixada

Conheça o projeto

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