Vigilância popular em saúde, pesquisadores de Santa Cruz denunciam crise ambiental no bairro

Texto por
Luize Sampaio
Data
13 de dezembro de 2022

Martha Trindade foi uma das ativistas pioneiras contra o distrito industrial de Santa Cruz, na Zona Oeste do Rio.  Um dos símbolos da luta contra a poluição do ar e preservação ambiental, Martha faleceu por conta de problemas respiratórios. A sua luta segue viva através de quatro jovens também moradores da região que se uniram em 2016 para criar o Coletivo Martha Trindade. O pesquisador Flávio Rocha, contou que o objetivo da iniciativa é de contrapor a narrativa da Companhia Siderúrgica do Atlântico (TKCSA).

“Eles sempre disseram que o ar de Santa Cruz era melhor que o do Leblon, então a gente foi medir essa qualidade. Esse processo de meditação nos confirmou que o ar daqui não é melhor que o do Leblon, inclusive, mostrou também que o ar está acima dos valores permitidos pela Organização Mundial da Saúde (OMS)”, completou Rocha. 

Coletivo realizou a oficina “Mudanças climáticas e conflitos ambientais: um olhar sobre siderurgia” em parceria com a Casa Fluminense. Foto: Mayara Donaria

Apesar de estarem um dos bairros mais distantes das universidades públicas do Rio de Janeiro, o trabalho de levantamento cidadão de dados do coletivo chegou a Fiocruz e outros campos acadêmicos importantes, mas o grupo quer seguir numa outra direção também.  

O Martha Trindade tem realizado ações locais com a população, um desses encontros foi uma oficina apoiada pelo Fundo Casa. Durante a formação, moradores de Santa Cruz discutiram sobre racismo ambiental. 

“A produção de narrativas não pode ficar restrita às universidades e a população branca, a periferia tem a capacidade de construir também junto. Falamos muito sobre as populações que são sacrificadas em prol do desenvolvimento. Todo desenvolvimento tem um preço, aqui que tem sido a vida dessas pessoas”, afirmou o pesquisador do coletivo. 

Alunos da oficina tiveram acesso ao documento completo da agenda Plano Santa Cruz 2030 para pensarem em novos caminhos para o bairro. Foto: Mayara Donaria

Santa Cruz foi umas das primeiras regiões da metrópole do Rio a produzir uma agenda local, na publicação era defendido a importância de ter mais oportunidades de emprego para jovens negros e também a necessidade de uma compensação pelo desgaste que o distrito industrial causava na vida dos moradores. O bairro possui um dos dez menores IDH, enquanto o Leblon está em segundo lugar entre os melhores. 

Segundo Flávio, esses fatores socioeconômicos estimularam também a empresa a se instalar no bairro.

“Eles sempre pregaram um discurso de como trariam empregabilidade e desenvolvimento para o nosso território, mas quem mora aqui sabe que isso não é verdade. Esses processos de expansão industrial ignoravam e seguem ignorando os saberes locais, a soberania alimentar do território e as nossas populações tradicionais”, completou o pesquisador. 

Santa Cruz é uma região historicamente ocupada por populações tradicionais e pescadores, mas desde a década de 60 o território tem passado por um longo processo de industrialização, uma marca são os conjuntos habitacionais que cortam o bairro .Além da poluição do ar, a siderúrgica também impacta na vida e trabalho dos pescadores da região, o resultado da sua poluição pode ser visto na Baía de Sepetiba e no Rio Guandu. 

Alunos e representantes do coletivo fizeram uma leitura final com todas a propostas que apareceram durante a oficina. Foto: Mayara Donaria

A partir dos diagnósticos já colhidos e denunciados pelo Coletivo Martha Trindade e também das novas propostas que surgiram na oficina, o grupo agora está focado na produção de uma carta compromisso. Esse documento vai ser usado para fazer cobranças e propostas de mudanças para o distrito industrial. 

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