Uma universidade para o Complexo do Alemão

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Texto por
Rogerio Daflon
Data
29 de janeiro de 2015
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(Foto: Eugênia Motta)

 

Coordenador Geral do Instituto Raízes em Movimento, Alan Brum Pinheiro, morador do Morro do Alemão, vê as 12 localidades  vizinhas à favela núcleo onde reside. Alan só enxerga um imenso potencial nesse histórico território na Zona Norte da cidade, onde moram, segundo o Censo do IBGE de 2010, mais de 70 mil pessoas. Alan ri desse número. Ele e outros residentes sabem que, no Complexo do Alemão, há muito mais gente. Mas, estatísticas à parte, Alan Brum mira um tema e não tira os olhos dele um minuto sequer. Vibra com a perspectiva de o lugar receber uma universidade, pois já há recursos para isso assegurados pelo Instituto Federal do Estado do Rio de Janeiro (IFRJ), o antigo Centro Federal de Educação Tecnológica Celso Suckow da Fonseca (CEFET). Para que isso ocorra, contudo, é necessário que a prefeitura do Rio doe um terreno dentro do próprio Alemão.  Como a prefeitura não vem dando resposta nos últimos dois anos e meio, a luta pela universidade ali está cada vez mais aflitiva. Alan e um conjunto de organizações do Alemão estão unidos em torno desse sonho universitário. Nesta entrevista, ele conta como está o processo e discorre sobre o tema da educação sempre levando em conta a história do território.

 

CASA FLUMINENSE: Como surgiu a possibilidade de o Alemão ter uma universidade?

 

Alan Brum: O Instituto Raízes em Movimento – por conta do trabalho de pesquisa que desenvolve consolidando o Centro de Estudos, Pesquisa, Documentação e Memória do Complexo do Alemão (Cepdoca) -, tem um convênio com a UFRJ e com o próprio IFRJ, que mantém a excelência no ensino médio técnico, mas atualmente também tem graduação. Mestrado e doutorado. Nosso diálogo com o IFRJ começou com as Pró-reitorias de Extensão e Pesquisa. E, nessa conversa, ficamos sabendo que um decreto de 2011 determina a criação de novas unidades do IFRJ em todo país, ao todo 208. No Rio, fariam cinco unidades, e  duas delas na capital, no caso no Complexo do Alemão e na Cidade de Deus. Em todo Brasil, esse processo tem  em comum o fato de as prefeituras doarem um terreno para a construção dessa unidade universitária. Mas aqui a prefeitura, com Eduardo Paes à frente, cedeu o terreno que poderia ser para a universidade no Alemão para a instalação da Coordenadoria de Polícia Pacificadora. O IFRJ então solicitou à prefeitura uma alternativa, mas até hoje não obteve resposta.

 

CASA FLUMINENSE: O que o Alemão ganharia com a universidade?

ALAN BRUM: O Precisamos de equipamentos consistentes no território. E uma universidade vai fomentar outros elementos estruturantes e, no futuro, provocar discussões como a sobre o modelo de segurança pública. Vejo ainda a universidade como uma total possibilidade de qualificar as políticas públicas que venham a ser feitas no Alemão, inclusive na área de educação. Temos, por exemplo, um problema crônico de qualidade nos ensinos fundamental e médio. Os coletivos do Alemão têm uma proposta para construir um projeto de educação aqui, mas não vê nem o governo do estado nem prefeitura dispostos ao diálogo. Uma pena, porque as favelas produzem um conhecimento ímpar na cidade. E esse conhecimento tem a ver com o contexto dos alunos do nosso território. O que propomos, portanto, é que as crianças, adolescentes, jovens e, por que não?, adultos estudem disciplinas como História e Geografia tendo como instrumentos contextos locais. As instituições locais podem contribuir muito nesse sentido. O processo de educação atual, alheio aos conteúdos locais, torna as aulas massacrantes, chatas mesmo. Os alunos aqui sempre gostam de saber a história do nosso lugar; a história do polonês que acabou sendo confundido com um alemão, onde ele morava, onde havia fábricas por aqui…Temos uma organização, a Verdejar, que atua há mais de 15 anos na região e conhece tudo que se refere às questões geográficas, geológicas e ambientais do Alemão. Não há porque alijar todo esse potencial local do processo. Trata-se de um conhecimento acumulado indispensável.

 

CASA FLUMINENSE: O Complexo do Alemão contou com intervenções do Programa de Aceleração de Crescimento (PAC). Como a educação foi nele contemplada?

 

ALAN BRUM: No nosso caso, o PAC investiu mais de R$ 1 bilhão, e depois ainda veio a Unidade de Polícia Pacificadora. E é aí que vemos uma triste desproporção. Há cinco unidades de UPP no Alemão, e só foi construído uma escola.

 

CASA FLUMINENSE: Como vocês estão se articulando para conseguir o terreno da prefeitura? O que estamos tentando com mais urgência é conseguir um termo de compromisso do IFRJ para assegurar a universidade no Alemão. O Ministério da Educação, que é de onde vêm os recursos, tem o direito de retirar a verba do Rio, diante da demora da prefeitura em doar um terreno. E essa verba só estava garantida até dezembro de 2014. Então, nós nos unimos para conquistar esse sonho. E nossa estratégia agora é a da pressão sobre a prefeitura. Além do Instituto Raízes em Movimento, temos como instituições nessa luta o Ocupa Alemão, o Alemão Morro, a Voz da Comunidade, o Verdejar, o Papo Reto, as associações de mulheres do Alemão, o Copliberdade, o NCA, a Oca dos Curumins, a Favela Fashion, o Educap, e as gestões da Vila Olímpica e da Nave do Conhecimento.  Criamos  um evento no facebook no dia 31 de janeiro. Vamos ao MEC, à Câmara Municipal e pedimos uma audiência na prefeitura. No dia 31, vamos fazer esse evento, onde fica o organização Barraco 55. Estão todos convidados.

Mais informações sobre a plenária popular no Complexo do Alemão, no dia 31 – https://www.facebook.com/events/615073758636035/

Veja a campanha pela IFRJ do Complexo do Alemão na panela de pressão do Meu Rio – http://paneladepressao.nossascidades.org/campaigns/610

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