Em meio a crise na educação, o projeto Juventude Popular na Universidade atravessa seu primeiro ano

Texto por
Luize Sampaio
Data
14 de dezembro de 2020

Em um dos anos mais decisivos para a educação, o Juventude Popular na Universidade conseguiu encerrar seu primeiro ciclo  mobilizando e motivando jovens de todas as partes da Região Metropolitana do Rio de Janeiro. O projeto faz parte de uma nova linha de apoio do Fundo Casa Fluminense que selecionou 8 pré-vestibulares comunitários de áreas periféricas do Rio. São eles: Coelho Neto Universitário, Santa Cruz Universitário, Pré-Vestibular Comunitário Esperança Garcia, Núcleo Solano Trindade, Pré Vestibular Ampara Queimados, PVNC – Vila Operária, Uneafro Belford Roxo e Nós por Nós Jardim Catarina. 

Ainda em fevereiro de 2020, antes da pandemia, a Casa também organizou uma oficina com os coordenadores dos pré-vestibulares apoiados para pensar sobre os perfis dos alunos na metrópole e estimular uma troca de experiências. Se naquele primeiro encontro o desafio era alcançar mais jovens pobres, negros e moradores da perifeira, neste cenário de crise sanitária e isolamento social, o foco se tornou garantir a permanência dos estudantes. 

A nova crise na educação, provocada pela pandemia, se iniciou com a perda de renda familiar e insegurança alimentar. Por conta disso,  todos os grupos realizaram ações emergenciais para garantir que as famílias dos estudantes e as comunidades do entorno recebessem cestas básicas e kits de higiene. O próximo passo foi lidar com o problema do ensino remoto.  Um levantamento feito com as equipes dos prés apresentou que, dos 294 estudantes, apenas 40% conseguiram acompanhar as atividades online. Em um ano decisivo como é o do vestibular, os principais entraves para os estudos foram a falta de computadores em casa e as dificuldades de acesso à internet. Já o Mapa da Desigualdade 2020 mostrou que apenas 57,6% dos lares metropolitanos possuem acesso à banda larga fixa. Diante desse cenário, os pré-vestibulares precisaram adaptar a sua atuação. Por isso, além dos donativos, outra frente a que se dedicaram 6 dos 8 grupos apoiados foi a compra de pacotes de internet móvel para garantir a conexão à internet dos estudantes. Um dos voluntários do Coelho Neto Universitário, Henrique Santos, falou sobre a importância do recurso do fundo para a continuidade das atividades nesse novo formato. 

“Graças ao recurso foi possível continuar com as aulas durante a pandemia. Assinamos um programa para fazer as aulas online e viabilizamos internet para os alunos, colocando crédito para os alunos acompanharem as aulas. Fizemos a aquisição de um notebook e uma impressora e folhas que usamos para a impressão de apostilas, provas e outros materiais que disponibilizamos para os estudantes”, afirmou Santos. 

Outro grande desafio do ano foi o embate sobre o calendário do ENEM, o principal exame nacional que é responsável pelo ingresso direto em universidades que aderiram ao sistema e também nos programas do ProUni e FIES. Em março, com a abertura das inscrições, os debates sobre a necessidade de adiamento do exame se iniciam. Entendendo que as desigualdades entre os alunos foi acentuada com a crise do novo coronavírus, o Juventude Popular na Universidade passou a somar forças ao movimento #AdiaEnem. Essa mobilização gerou também um infográfico da desigualdade da série covid sobre desigualdade no acesso ao computador, inserções na imprensa nacional (Jornal Nacional, Jornal O Globo, Balanço Geral) e artigo escrito em parceria pela Casa Fluminense, Santa Cruz Universitário, PVC Nós Por Nós e PVNC Vila Operária, publicado na coluna do PerifaConnection na Folha de São Paulo. O resultado foi o adiamento. Mesmo a contragosto do então ministro da educação, Abraham Weintraub, a sociedade civil conseguiu pressionar a mudança de data das provas, que serão realizadas em janeiro de 2021.

Alguns meses depois, os oitos pré-vestibulares do Juventude Popular na Universidade se uniram novamente para realizar um feira de profissões voltada para os seus alunos. Na ocasião foram convidados profissionais de diferentes áreas e que já tinham passado por pré-vestibulares comunitários. Foram sete horas de programação transmitidas ao vivo pela páginas dos pré-vestibulares apoiados, e que somou mais de 1.300 visualizações.

A sequência de obstáculos provocada pela pandemia agravou ainda mais um cenário que já era desafiador. Todo esse trabalho do ano mexeu com a saúde mental tanto dos alunos quanto dos professores. Percebendo o peso do ano, a Casa Fluminense organizou uma oficina de intercâmbio online entre as equipes dos prés. A ideia era que os grupos conseguissem encontrar soluções para os desafios comuns juntos e trocassem sobre estratégias de cuidado com a saúde mental. A assessora de mobilização da Casa Fluminense, Yasmin Monteiro, acompanhou todas as etapas do projeto e já está planejando os próximos passos para 2021.  Sem vacina, a tendência é que outros desafios possam interferir na continuidade do trabalho dos prés e a incerteza sobre as atividades permanece. Yasmin adiantou um pouco sobre as estratégias pensadas para o próximo ano. 

“Ainda estaremos dentro de um contexto desafiador então a ideia é não só dar continuidade ao projeto em 2021, como também ampliar seu alcance. Queremos fazer isso mantendo o valor do recurso atual. Esse é o nosso principal foco atualmente”, explicou Yasmin.

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