CRÔNICA: “A Montanha e o Labirinto”, por João Felipe Brito

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Texto por
Joao Felipe Brito
Data
24 de abril de 2015

Perto da casa onde vivi durante toda a minha vida, existe um aterro sanitário. Para o poder público municipal, aquela montanha de restos, coberta de terra escura e grama enganosa, com caminhões cheios de luzes e barulhos durante todas as horas do dia, por todos os dias da semana, chama-se “Centro de Tratamento de Resíduos de Gericinó”. Para os locais, “O Lixão”.

Na minha infância, quando me parecia – e era de fato – bem mais distante, chamava-se “A Rampa”. Só fui me dar conta de que não era muito legal ter no panorama de seu bairro um espaço como esse, que recolhe o lixo de gente de toda a cidade, quando, concomitantemente à vivência cotidiana noutros bairros distantes, derrubaram todas as amendoeiras da minha rua, para que casas subissem, para que novas famílias fossem possíveis. Porque os tijolos não param, porque estar “em obra” é uma condição suburbana.

Abriu-se, então, diante de minha janela, um pisca-pisca noturno hipnotizante, um ronco draconiano de tratores no vazio das madrugadas. Fui obrigado a perceber aquilo. Obriguei-me a tomar aquilo como elemento criativo. Não fiz poemas ou canções com isso, mas sociologias; não entrevistei estranhos, mas vizinhos; não tomei ônibus ou trens, fui a pé, fazendo acenos, incomodando, tomando sustos. Foi penoso o esforço de tentar entender por quais razões escapei de uma vida sobre dejetos.

Do lado desta minha casa, casa dos meus pais, vivia um rapaz que chamarei de Dédalo*, e então o amigo leitor pode imaginá-lo sendo chamado por alcunhas derivadas deste nome: Dédo, Dedão, Dedinho, Deco, e por aí vai. Ele vivia bem ali do lado mesmo, dividíamos o muro do pequeno quintal que temos – que, para ele, era a parede de seu quarto.

Dédalo sempre teve um olhar bondoso, era daqueles que cumprimentavam as senhoras, ajudava os passantes, tinha um riso fácil. Lembro que desenhava coisas belíssimas. Dentro de sua imagética de garoto com poucos estudos e sem livros em casa, o belo para ele era uma flor, um pôr-do-sol por trás da serra que protege o bairro, uma praça arborizada, uma árvore de Natal.

Dédalo não teve estímulo de ninguém para aprender a desenhar. Se o fazia, era porque isso se impunha em seu espírito de garoto de favela que, por ser muito pobre, desejava da vida mais do que o miserê que dela usufruía; que, por ser gordo, sentia mais cansaço e menos ânimo para correr para lá e para cá como os demais garotos da rua, logo, agarrava-se à introspecção advinda do descanso de folhas em branco; que, por ser negro, não era tido pelos de fora como detentor de muitos atributos. Mas, desenhava assim mesmo, e o fazia bem.

Já adulto, Dédalo virou entregador de materiais de construção. Carregava sacos de cimento em cima de uma velha bicicleta vermelha. Certa vez, sumiu. Fora preso. Tinha um pacote de cocaína consigo, disseram. Foi julgado, sei lá, e depois enviado, vejam vocês, para o complexo penitenciário que fica exatamente ao lado do “Lixão”, perto de sua casa. Seria mais fácil receber visitas, claro, o que poderia ser algum alento caso tivesse mais do que uma mãe doente e uma irmã deveras ocupada com as coisas da casa e do filho pequeno. Jamais teve pai. Amigos, teve poucos. Ficou em “banho-maria” no cárcere por uns três anos, preparando-se para o recomeço desse sei-lá-o-quê confuso que vai das luzes do parto à falência definitiva do corpo.

Ao sair da cadeia, Dédalo tornou-se, no linguajar dos burocratas e dos politiqueiros, “agente ambiental”. No linguajar das suas paragens, “catador de lixo”. Sobre a montanha de “resíduos sólidos urbanos”, de botinas e calças sujas, pele ressecada pelo sol e castigada por vermes e latas de ervilha enferrujadas, Dédalo avistava diariamente os muros dos presídios.

Escapando dos voos rasantes de urubus famintos, lembrava-se dos anos enjaulado e dos tapas na cara que havia levado, e do calor cheio de mosquitos na cela, e das coceiras, e dos ruídos de goteiras alucinando suas noites, e do medo de ter o ânus violentado, e refletia sobre como pôde ser tão azarado durante toda a vida.

“Já nasceu com azar”, diriam por aí.

Dédalo conheceu uma catadora como ele, tiveram um filho, ela parou de trabalhar, ele comprou meia dúzia de coisas e voltou com os seus à casa onde nasceu, após a morte da mãe. Esta casa lá do lado, onde compartilhamos um muro que, do lado dele é um quarto, como disse, e do nosso lado é um lugar de pendurar samambaias.

O tal aterro sanitário não possui mais catadores. A prefeitura não tem planos de fechá-lo, mas chegou a divulgar que ali haveria uma usina de biogás, preservando-o ainda como “um lixão de reserva” para entulhos e possíveis colapsos na coleta dos resíduos municipais. Dédalo e todos os demais trabalhadores que viviam coletando recicláveis (metais, plásticos, papelão), cerca de trezentas pessoas, foram indenizados. Cada um recebeu a fortuna de catorze mil reais.

Disseram que haveria “cursos de capacitação para o mercado profissional” para estes homens e mulheres marcados até o fim da vida pela memória dos restos, pelas cicatrizes na carne e no ego de um longo período carregando e aproveitando objetos tidos como impuros e rejeitados pela cidade. O bairro e seu entorno não viram uma única iniciativa de compensação pelo custo ambiental dos anos e anos de lixão por ali, como consta no Estatuto da Cidade e nas regras de boa cidadania. A cidade gulosa e descartável não tem nada além de “resíduos públicos” a lhes oferecer.

Após um período vivendo noutro lugar, voltei à casa onde nasci, como Dédalo, e vi que, com o dinheiro recebido da prefeitura, ele reconstruía a casa que fora de sua mãe. Trabalhava duro, descia pelos seus braços um suor prazeroso, que refrescava o pescoço e as costas no vento crepuscular de Bangu. Carregava cimento, enfim seu. Carrega metais, enfim comprados. Derrubava e erguia uma laje, enfim nova, firme, pronta para receber um novo piso no futuro se necessário for. Se a família crescer, “se Deus permitir”. Eu o encontrei, ele estava claramente feliz, e o cumprimentei, depois de tantos anos:

– Essa obra aí tá parecendo a da Perimetral, malandro! – eu lhe disse sorrindo.

– Coé, Felipe! É, meu chapa, tá fácil não… – ele respondeu, exausto, também em risos.

Sei que não está, meu caro. Mas a casa ficou bonita, vamos admitir. Está longe do que você merece, longe do que você seria capaz de ter se esta estranheza de mundo não distribuísse “azares” como distribui lixo para bairros escondido, presídios para as margens da metrópole, todas as instituições poluidoras e estigmatizantes para os lugares onde os direitos mais básicos ainda não chegaram.

Lugares de urbanidades “limitadas e selecionadas” a dedo por planejadores urbanos com sensibilidades iguais às de um imenso caminhão da Comlurb, que agora segue para Seropédica, lugares cheios de meninos e meninas que não estudam e nem correm livres pelas ruas como deveriam fazê-los.

No dia desse reencontro, segui meu caminho e, lembro bem, ecoei Mário de Andrade em meus pensamentos de redemoinhos científicos e literários, as frescuras de quem não frequentava mais o campinho do bairro: “Esse homem que ali está, reconstruindo seu futuro, alimentando esperanças nas marretadas sobre o concreto, é banguense, é favelado, que nem eu”.

Que nem eu?

 

P.S.1: Dédalo é o sujeito que, na mitologia grega, construiu o labirinto em Creta para aprisionar o Minotauro, morto, posteriormente, por Teseu. Também foi pai de Ícaro, aquele que teve asas de cera construídas pelo pai e derretidas pelo sol após um voo de fascínio e abuso.

P.S.2: Gramacho ficava a aproximadamente 15km do Centro do Rio. Gericinó, a mais ou menos 30km. Seropédica, mais ou menos 60km. Nessa progressão, o próximo depósito de lixo da cidade do Rio de Janeiro será na região de Angra dos Reis, quem sabe lá do lado das usinas nucleares “protegidas” por tanto mar e tanto verde.

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