A Cruzada para salvar o Leblon

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Texto por
Rogerio Daflon
Data
28 de novembro de 2014

A Cruzada São Sebastião é o câncer do Leblon. A frase, comum no bairro com o IPTU mais caro do país, depõe contra os seus moradores, que a dizem sem-cerimônia. Para desmenti-la, nada como passar alguns dias observando o cotidiano dos dez blocos que compõem o conjunto. Em 2010, ao buscar ali pessoas que viveram na Praia do Pinto – favela tradicional da Zona Sul extinta num mal explicado incêndio em 1969 – me deparei com Sebastião segurando um violão. Ele disse que a mãe – que vivera na favela numa casa de madeira – não podia falar naquele momento. Insisti na conversa e, ao lado da fotógrafa Marizilda Cruppe, perguntei, sei lá por quê, qual o gênero de música de que ele mais gostava.  A resposta foi uma ótima performance de “This is Love”, do Bob Marley. Pensei cá comigo: olha só a tão perigosa Cruzada…

 Tinha passado pelos olhos mais de cem reportagens sobre o lugar e todas, com honrosas exceções, associavam os índices de criminalidade do bairro à população de lá. Passei então a circular pelos corredores dos dez prédios. Não vou aqui cair no conto de idealizar a Cruzada. Até porque o lugar é extremamente barulhento. Vi um alto-falante instalado numa janela tocando, para todo mundo ouvir, “Sex Machine”, de James Brown. Em outro bloco, um CD do Zeca Pagodinho era acompanhado por um coro vindo de diferentes apartamentos: “Descobri que te amo demais…”

 Enfim, uma monotonia só. Os dias foram passando entre os dez blocos, e as reportagens que li sobre a Cruzada passaram, obviamente, a não fazer qualquer sentido. No ano passado, levei Felipe lá. O moleque viu várias máquinas de games na calçada do conjunto. “Gostei daqui”, disse ele, sempre com o poder de síntese aguçado.

 Como o Felipe, gosto (muito) de lá. A meu ver, sua história desvenda um pouco a cidade e a metrópole. Explico. Nos anos 50, quando Dom Helder Câmara, na época bispo auxiliar do Rio de Janeiro, idealizou a Cruzada e conseguiu recursos para construí-la com o então presidente Dutra, imaginou instalar pessoas de baixa renda próximas do trabalho e do lazer. Uma certa elite do Leblon se sente agredida justamente por estar perto destes vizinhos indesejados, que frequentam a mesma praia. Para eles, seria melhor que vivessem na Baixada Fluminense.

 Assim, a Cruzada, à maneira dela, se aproxima da Baixada e nos leva à escala metropolitana, tão malquista a quem, por exemplo, sonha transformar o Leblon numa espécie de condomínio fechado, como os ilustrados por Teresa Caldeira no artigo “Enclaves fortificados: a nova segregação urbana”.

 Na minha visão, o perigo que ronda a Cruzada é o da gentrificação, como aponta minha amiga, colega e moradora de lá, Thaiane Barbosa. Como os apartamentos estão cada vez mais valorizados, há quem já deixe a Cruzada à procura de lugares mais em conta, sobretudo quem paga aluguel (nos anos 1980, Leonel Brizola assegurou o registro de imóveis para os moradores).

Para mim, se a Cruzada um dia perder sua característica de moradia popular, o bairro do Leblon – no qual em algumas ruas já se veem antipáticas cancelas com seguranças – vai cada vez mais se fechar em si e em relação à cidade e à metrópole.

Sem a Cruzada, o destino do Leblon é ser um triste principado.

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