A jornada das lideranças femininas é o que nos garantiu vivas até aqui

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Texto por
Comunicação Casa
Data
8 de março de 2024

*Por Luize Sampaio

Cuidar é o trabalho mais importante e estratégico da nossa sociedade. É a partir dessas atividades diárias que temos a sustentação e reprodução da vida humana, a geração de força de trabalho, mantemos nossa economia e o bem-viver geral. Apesar de vital, esse trabalho ainda não é enxergado pela economia e Estado. Segundo o IBGE, em 2022, as mulheres dedicam quase o dobro do tempo a cuidados domésticos e de pessoas do que os homens. 

Figuras como mães e donas de casa realizam historicamente esses trabalhos sem remuneração ou valorização. Isso acontece porque a nossa visão sobre o trabalho do cuidado é uma herança escravocrata e patriarcal. Existe um viés da emancipação feminina e participação das mulheres no mercado de trabalho que por muitas décadas tentou invisibilizar a questão racial e de identidade de gênero que as diferencia. O trabalho não remunerado pode ser um problema de todas, mas as mulheres negras e indígenas que foram sujeitadas ao trabalho escravo no Brasil por cerca de meio século ininterruptamente. 

Muitas são as camadas do cuidado e a interseccionalidade desse tema. Quando analisamos o cuidado desempenhado por mulheres trans, por exemplo, é possível entender que ele não é limitado a apenas a sua família mas também a toda comunidade. Em Nova Iguaçu, Shirley Maria Padilha, de 47 anos, coordena a única casa de acolhimento LGBTQIA+ da Baixada Fluminense. Em um país que há 15 anos consecutivos tem sido classificado como o que mais mata pessoas travestis e transsexuais no mundo, manter esse espaço sem apoio do poder público e sob ameaças é trabalho, em seu extremo.  A verdade é que olhando para as periferias da nossa metrópole, as  mulheres cis e trans estão no front seja qual for o tema ou problema, estão carregando as soluções, mas também lidando sempre com o maior peso. 

Se em algumas realidades mulheres vivem uma tripla jornada de trabalho – com trabalho, lar e maternidade – nas favelas e periferias do Rio, nossas lideranças sociais estão na quíntupla jornada do trabalho de cuidado. Elas são mulheres, mães, donas de casa, esposas, estudantes, trabalhadoras formais e ainda lideranças territoriais. Cuidam dos filhos, dos parceiros, da casa e das suas comunidades. Em uma enchente salvam seus filhos, levantam os móveis, organizam as documentações da família e no dia seguinte estão lá limpando a sua casa e dos seus vizinhos. Quando ligamos a televisão também é essa a figura que aparece cobrando melhorias, lamentando mortes, se posicionando politicamente, apesar disso expor sua segurança, e a perversidade do nosso judiciário. 

As mulheres, sobretudo as mulheres negras, são nossas maiores lideranças mesmo sem ocuparem os cargos públicos mais importantes para a transformação dos seus territórios. Elas podem não ser o rosto do congresso, da presidência nem ao menos das suas câmaras municipais, mas são o contato de emergência da sua rua inteira. Sem espaço político, com o tempo consumido e sem recursos, ainda é delas que encontramos forças para permanecer.

*Luize Sampaio é da Zona Norte do Rio, formada em comunicação social pela PUC-Rio através do PROUNI com ênfase em gestão e avaliação de políticas públicas. É editora de conteúdos da Casa Fluminense, onde monitora as desigualdades da Região Metropolitana do Rio.

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