Risco no trilhos: 409 pessoas foram atropeladas e mortas por trens do Rio nos últimos 10 anos

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Texto por
Luize Sampaio
Data
29 de setembro de 2021

Embarcar ou circular próximo a algumas estações de trem é uma tarefa de risco na Região Metropolitana do Rio. Nos últimos dez anos, 409 pessoas morreram atropeladas por trens nas estações ou linhas férreas nos municípios atendidos pela Supervia. Dados do Instituto de Segurança Pública (ISP) mostram também que entre 2011 e 2020, o perfil das vítimas tem sido o mesmo: 80,9% são homens e 69,7% negros. A média de mortes por atropelamento entre 2019 e 2020 foi de pelo menos 4 mortos por mês.

Arte: Taynara Cabral

O professor de dança e B-boy, Lorran Santos de Souza, de 25 anos, mais conhecido como El Foguito, quase foi uma dessas vítimas fatais. Morador do Parque São José, em Duque de Caxias, o artista já se apresentava há cerca de 5 anos pelos ramais da Supervia. Em julho deste ano, o jovem foi atingido por um trem próximo à estação do Jacarezinho quando estava a caminho de um trabalho voluntário. Ao tentar atravessar a linha férrea, que por falta de uma passarela é usada como passagem no bairro, ele foi derrubado pelo trem. Lorran até conseguiu rastejar para fora dos trilhos mas não a tempo de tirar parte da perna direita. Ele contou que o maquinista seguiu viagem e a concessionária não prestou socorro. 

“Tinha acabado de pedir ‘bença’ para minha mãe no celular, olhei para um lado e outro do trilho e não vi nenhum trem. Quando percebi, o veículo já estava em cima de mim, senti bater no meu corpo todo e tentei sair mas não deu tempo. O guarda da Supervia veio, mas só ficou olhando. As pessoas gritavam muito porque meu pé já estava fora do corpo, mas quem me ajudou mesmo foi um morador de rua, que me reconheceu”, afirmou Lorran. 

El Foguito em 2017, antes do acidente. Foto: Acervo Pessoal

O dançarino é conhecido nos vagões e nas ruas da metrópole pelas suas apresentações de breakdance mas também pelo seu envolvimento com projetos sociais. O jovem dividia sua rotina entre o trabalho e as entregas de cestas básicas e aulas gratuitas de danças para crianças. O morador de rua que o levou até a Upa de Manguinhos já recebeu uma cesta básica das mãos do Lorran. Da unidade, ele foi transferido para o Hospital Salgado Filho, no Méier, onde ouviu do médico que teria que amputar o pé.

“Ele falou que ia dar muito trabalho tentar juntar, era mais fácil tirar. Dois dias depois fui liberado e fiquei confuso sobre o meu futuro, nunca imaginei que isso fosse acontecer. A minha renda vinha do meu trabalho com a dança, agora eu e minha filha dependemos da ajuda que a minha mãe tem me dado. Vou lutar agora para que a Supervia pague pelo seu erro”, explicou o B-boy. 

Direito à vida e reparação 

Nos últimos dez anos, ⅓ dos 409 atropelamentos seguidos de morte ocorreram nas estações. Para o especialista de transporte e coordenador executivo da Casa Fluminense, Vitor Mihessen, os dados do ISP escancaram o problema da falta de gestão da atual concessionária. 

“Esses homicídios ocorrem justamente onde a Supervia deveria ter todo o controle operacional. É na estação que eles possuem toda a sua estrutura e equipamento – como os funcionários, sinalizações, catracas e sinalização – que deveria ajudar na segurança dos passageiros. A empresa cobra passagens cada vez mais caras, enfim, toda a estrutura de cobrança que estamos vendo, mas não oferece uma estrutura básica para os passageiros”, afirmou Mihessen.

A luta por justiça e memória aos acidentes causados nos trilhos do Rio foi o que motivou a mestre em Serviço Social, Rafaela Albergaria, a criar recentemente o Observatório dos Trens. A organização nasceu da vontade da pesquisadora em dar continuidade ao trabalho iniciado em 2017, ano em que sua prima Joana Bonifácio, de 19 anos, morreu atropelada por um trem. O incidente ocorreu na estação Coelho da Rocha, em São João de Meriti quando a jovem estava a caminho da faculdade. Ao tentar embarcar em um dos vagões, Joana ficou com uma das pernas presa na porta do veículo que, sem sinalização adequada, seguiu viagem. Joana caiu no vão entre o trem e a plataforma e em seguida foi atropelada pelo trem. 

“Naquela época começamos a construir uma pesquisa inédita sobre os dados de atropelamento ferroviários, que deu origem ao livro “Não Foi em Vão”. Nosso objetivo era dar mais visibilidade para esses processos sistemáticos de violência que atravessam o cotidiano dos passageiros. Nossa existência do Observatório é fortalecida nesse contexto de grave crise do sistema de transporte sob trilhos. Nossa produção de dados vem no sentido de uma luta para produzir memória e justiça, além de apresentar a precarização, omissão e ação de violência direta da concessionária responsável e do próprio governo do estado”, resumiu Rafaela. 

O futuro urgente

Três meses desde o acidente, o artista de rua conhecido como El Foguito ainda está no processo de tratamento e adaptação à nova vida. A família criou uma vaquinha para ajudar na compra da prótese, Lorran sonha em voltar a dançar. 

“Estou acabando a fase de cicatrização para poder começar a fisioterapia mas tenho fé que vou voltar a fazer tudo que fazia antes. Estou buscando inspirações em outros artistas que tem uma situação parecida com a minha”, afirmou o dançarino. 

Os diferentes tipos de violência presentes neste que é um dos principais meios de deslocamento das áreas mais periféricas da metrópole também é tema do documento “Recomendações para a modernização dos trens da Supervia“. Produzido pela Casa Fluminense em parceria com o Observatório dos Trens, o texto traz alertas importantes como: a possibilidade da passagem passar de R$7 em 2022, a falta de investimento na infraestrutura ferroviária do Rio e também a falta de segurança dos passageiros. A documentação foi entregue em mãos ao atual secretário de transporte do estado do Rio, Juninho do Pneu.

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