Em um contexto onde a população LGBT+ ainda enfrenta expulsão de casa, violência, abandono e dificuldade de acesso a direitos básicos, iniciativas de acolhimento seguem sendo construídas, muitas vezes, a partir da organização comunitária diante da ausência de políticas públicas efetivas. É nesse cenário que atua a Casa Dulce Seixas, primeira casa de acolhimento LGBT+ da Baixada Fluminense, coordenada por Shirley Maria.
A Casa fica localizada em Nova Iguaçu, território historicamente atravessado por desigualdades sociais e pela falta de equipamentos de acolhimento e proteção social. Segundo dados do Cobradô, plataforma de monitoramento da Casa Fluminense, os CRAS do município, que deveriam atender até 5 mil famílias por unidade, vivem uma realidade de sobrecarga, chegando a atender mais de 18 mil famílias por centro de referência. Nova Iguaçu aparece atrás apenas da capital entre os territórios mais sobrecarregados da Região Metropolitana do Rio de Janeiro.
Em um território onde o poder público ainda falha em garantir proteção, suporte e acesso a direitos básicos, a Casa desenvolve ações de acolhimento, acesso à cultura e formação como caminhos para fortalecer a autonomia, garantir dignidade e ampliar possibilidades de futuro para essa população.

“A gente encontrou um cenário de muita demanda e que antes não era oportunizado nenhum atendimento. Então, desde o começo, o nosso trabalho com a população LGBT+ vai além do acolhimento institucional”, compartilha Natã Coutinho, diretor de Serviço Social da Casa Dulce Seixas.
Compreendendo que o cuidado também passa pela construção de espaço de segurança, redes e escuta, a organização desenvolve atividades voltadas ao fortalecimento coletivo das pessoas que moram na casa hoje. Entre os projetos está o Cine Acolhida, que articula audiovisual e cultura, oferecendo convivência e espaço de formação através dos filmes.


Coutinho conta como o projeto têm apoiado no suporte às pessoas acolhidas pela casa: “Fazemos uma oficina de fortalecimento de vínculos, com cuidado através da cultura do audiovisual, porque acreditamos nessa questão da autonomia através da arte também”, explica.
A iniciativa foi apoiada pelo Edital Agenda Rio 2030 do Fundo Casa Fluminense de 2025, e está alinhada às prioritárias de Política do Cuidado, Sistema de Cultura e Memória e Cidades Seguras da Agenda. O apoio possibilitou não apenas a realização das atividades culturais, mas também o fortalecimento estrutural da casa, enquanto espaço de convivência e referência.



“Conseguimos manter o nosso projeto de rodas de conversa e palestras, também conseguimos comprar uma série de equipamentos que vão fortalecer, a longo prazo, as atividades da Casa Dulce Seixas enquanto um centro comunitário”, afirma o Diretor.
Ao investir em acolhimento, escuta, cultura e fortalecimento coletivo, a Casa Dulce Seixas mostra como iniciativas territoriais conseguem construir respostas concretas para problemas historicamente negligenciados pelo poder público. Em um cenário de precarização e violência contra a população LGBTI+, oferecer espaços de acolhimento para essa comunidade é também fortalecer o direito à existência, à memória e ao bem-viver.