Como proteger a cultura de uma comunidade sem políticas públicas efetivas de salvaguarda da memória? Em Tanguá, um dos municípios do Leste da Região Metropolitana do Rio de Janeiro, existe uma realidade de falta de acesso à política cultural que coloca lideranças, mestras e mestres locais como únicos responsáveis pelo resgate e proteção da memória cultural do território.
O município, que não possui um Plano para compor o CPF da Cultura, como revela o Cobradô da Casa Fluminense, expõe um cenário em que a ausência do poder público coloca na própria comunidade a tarefa de preservar suas histórias, tradições e identidades. É nesse contexto que surgem iniciativas como o Ecomuseu Caceribu, que desde 2015 atua como um ponto de memória comunitária de Tanguá.
Criado durante a 13ª Semana Nacional de Museus, o projeto foi idealizado por Rodrigo Rangel. Ex-aluno do Curso de Políticas Públicas da Casa Fluminense e bibliotecário, Rangel se motivou a partir da sua participação na Rede de Museologia Social do Rio de Janeiro para desenvolver uma proposta baseada em um modelo museológico participativo, que articula cultura, meio ambiente e desenvolvimento sustentável.
Entendendo a importância de construir uma museologia conectada às demandas do território, Rangel encontrou nas práticas culturais locais, especialmente na Folia de Reis, um eixo central de preservação. “O Ecomuseu Caceribu é uma proposta de uma nova museologia. Uma visão onde os patrimônios do território se compõem por uma gama do repertório cultural da cidade, e a Folia de Reis é essa expressão máxima de um patrimônio imaterial, muitas vezes incompreendido e invisibilizado”, afirma.
Para o idealizador, preservar a memória e a prática da Folia é também uma forma de salvaguardar a história do próprio município. “As histórias das Folias de Reis em Tanguá são anteriores até a própria configuração do município. Tanguá tem cerca de 30 anos de emancipação, mas, quando ainda era um distrito de Itaboraí, essa manifestação já existia como uma expressão cultural de grande relevância não só na região, mas em todo o estado”, conta Rangel.

A Folia de Reis surge como um movimento intergeracional, onde pais, irmãos e filhos compartilham saberes e práticas para que a cultura se mantenha viva e renovada. O desejo de Rodrigo Rangel é que toda a pesquisa histórica e de memória que o Ecomuseu se debruça sobre a Folia se transforme na produção de um curta-metragem, capaz de contar as histórias de grandes referências do território e ampliar o alcance dessas narrativas.

Esse trabalho tem sido construído de forma coletiva, junto a mestres e mestras da cultura local. Um deles é Claúdio Francisco de Oliveira, conhecido como Mestre Claudinho, que vem de uma família de foliões e hoje lidera seu próprio grupo, a Irmandade de Reis Nossa Senhora do Amparo. “Essa irmandade é, na verdade, a irmandade de uma família. É uma família de reis. Nós somos todos família”, compartilha mestre Claudinho.
O impacto da construção de redes em torno da memória e da cultura possibilita não só a continuidade de práticas culturais, como também fortalece o reconhecimento e a valorização dos saberes locais. Iniciativas como o Ecomuseu Caceribu mostram, na prática, que investir em modelos participativos de preservação é também garantir que histórias, tradições e identidades dos territórios não apenas resistam, mas sigam vivas, sendo transmitidas entre gerações e ocupando o lugar de direito na construção do futuro cultural da cidade.
O Ecomuseu Caceribu foi um dos projetos selecionados na Edital Agenda Rio 2030 do Fundo Casa Fluminense de 2025, alinhado à prioritária de Sistema de Cultura e Memória da agenda. Para Rangel, o apoio foi fundamental: “Através do edital, conseguimos dar visibilidade à Folia de Reis por meio de uma metodologia chamada inventário participativo, que fortalece o vínculo com essas práticas ancestrais e históricas”.
A experiência do Ecomuseu mostra que, mesmo diante da ausência de políticas estruturadas, é possível construir caminhos a partir das tecnologias sociais e ancestrais presentes nos territórios. Também reforça que para essas iniciativas continuem existindo e se fortalecendo, é essencial garantir apoio institucional, reconhecimento público e, sobretudo, a construção de redes.


