No contexto social de falta políticas públicas de cuidado e assistência, que sobrecarrega a vida de mulheres e precarizam suas saúdes, iniciativas como o Coletivo Sangue entre as Pernas, têm se tornado fundamentais para garantir acolhimento, escuta e fortalecimento da saúde integral das mulheres em territórios urbanos marcados pelo abandono estatal, pela violência de gênero e pelo apagamento dos saberes ancestrais.
Idealizado em 2022 pela Pajé Rita Tupinambá, indígena do povo Tupinambá do Sul da Bahia, do território Caramuru Catarina Paraguaçu, Rita vive em contexto urbano no Rio de Janeiro deste 2021, quando precisou sair do seu território após conflitos e perseguições religiosas em sua aldeia de origem. Agricultora, artesã e líder espiritual, ela carrega a missão de salvaguardar os saberes de seu povo, atuando como guardiã da cultura, dos cantos, das danças e dos rituais tradicionais.
No Rio de Janeiro, sua principal atuação se dá por meio da pajelança, uma prática de cura espiritual, física e emocional que articula plantas medicinais, medicinas sagradas e conexão com os encantados. A partir dessa vivência, nasce o projeto “Pajelança e o Feminino Sagrado”, iniciativa apoiada pelo Edital Agenda Rio 2030: tecnologias de bem-viver e direito a cidade, do Fundo Casa Fluminense.

“Esse projeto veio para contemplar as mulheres que vivem no contexto urbano, entendendo como é difícil ser mulher no tempo de hoje”, afirma Pajé Rita. “O Sagrado Feminino é exatamente para nos fortalecer e nos encorajar.”
Realizado em parceria com a Casa Bosque, no bairro de Campo grande, na zona oeste do Rio de Janeiro, o projeto reúne rodas de conversa, práticas de medicina natural com chás, banhos, vaporizações, garrafadas e tinturas, além de cantos, danças e debates sobre temas para a saúde integral feminina, como violência contra a mulher, menstruação, espiritualidade e o poder medicinal das plantas.
O Sangue entre as Pernas constrói uma rede de apoio entre mulheres indígenas e não-indígenas, estimulando que cada participante se torne multiplicadora dos saberes aprendidos. A proposta é que o cuidado seja compartilhado em espaço das rodas e alcance lares e territórios.
“Foi muito enriquecedor. Acho que precisamos nos conectar com nossos ancestrais, e às vezes isso parece algo distante, cheio de dogmas. Ela trouxe de uma maneira fluida e simples. Saímos com mais força e coragem para nos conectar com essa ancestralidade”, relata Sofie, participante do projeto e moradora de Guaratiba.




A continuidade do projeto também se dá pela organicidade das ações: além dos encontros principais, o coletivo realiza rodas menores, atendimentos individuais e articulações com outros espaços culturais e comunitários da Zona Oeste, mantendo viva uma rede de cura, cuidado e resistência construída entre mulheres.
Reconhecido como Ponto de Cultura em 2024, o Coletivo Sangue entre as Pernas reafirma que justiça social também passa pela valorização dos saberes tradicionais e pelo fortalecimento do cuidado. Em um cenário de sobrecarga feminina, violência e abandono institucional, a pajelança e o sagrado feminino se tornam caminhos de reconstrução da autoestima, da memória dos saberes ancestrais e da autonomia.
Alinhado às propostas da Agenda Rio 2030 de Política do Cuidado e Sistemas de Cultura e Memória, o projeto afirma que a construção de cidades mais justas também passa pelo reconhecimento das mulheres como guardiãs de saberes e vida dos territórios. Onde o Estado não chega, o cuidado coletivo resiste e floresce.