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Mesquita, a linha 77 e o tempo que não pode ser perdido

Por Iris Rosa

“Cidade dormitório”. Foi assim que aprendi a ouvir Mesquita sendo chamada desde criança. Foram muitas as manhãs em que acordávamos ainda com o sol raiando para levar meu pai até o ponto de ônibus. O trajeto até o trabalho era longo demais para caber em um dia só, parecia atravessar a própria vida.

Também foram muitos os fins de semana dentro do Japeri parador, atravessando a metrópole para escorregar de papelão na Quinta da Boa Vista. Outras tantas vezes sacolejando até a Pavuna, só para então pegar o metrô e finalmente chegar à “cidade”. Porque, para quem cresce na Baixada, o Rio de Janeiro não é exatamente onde se vive, mas onde se chega, resolve a vida e volta para casa.

Mas e Mesquita? E as outras cidades da Baixada Fluminense? O que elas são, afinal, para quem vive nelas?

A minha história não é exceção. É rotina. Segundo dados do IBGE, a Baixada Fluminense concentra alguns dos maiores tempos de deslocamento do país. Em cidades como Queimados, Nova Iguaçu e Belford Roxo, uma parcela significativa da população gasta duas horas ou mais por dia apenas para chegar ao trabalho. Em Mesquita, esse número também é parte da realidade cotidiana. São horas que deixam de ser descanso, estudo, convivência, lazer, vida.

A mobilidade, aqui, não é só um problema de transporte. É um marcador de desigualdade. É ela que define quem pode acessar oportunidades, quem pode usufruir da cidade, quem pode simplesmente existir com menos pressa.

Na última semana, esse tema ganhou um novo capítulo. No dia 16 de março, foi inaugurada a linha 77, conectando Mesquita ao Terminal Margaridas, em Irajá, bairro da Zona Norte do Rio de Janeiro. Pela primeira vez, haveria integração direta da Baixada com o sistema BRT da capital. Por um instante, pareceu que o tempo poderia encurtar. Que a distância entre viver e chegar poderia diminuir. Mas essa viagem nunca começou.

Ainda no início da operação, os ônibus foram recolhidos pelo Detro-RJ (Departamento de Transportes Rodoviários do Estado do Rio de Janeiro), sob a justificativa de que a Prefeitura do Rio não poderia criar uma linha intermunicipal. No dia seguinte, um acordo emergencial foi anunciado: linhas já existentes passariam a operar até o Terminal Margaridas, em caráter experimental, permitindo a integração com o BRT Transbrasil.

No meio desse impasse, ficou evidente o que quase sempre fica invisível: onde está a população nesse tipo de disputa?

A Prefeitura de Mesquita negou participação na autorização da linha 77. Ainda assim, seu nome estava estampado nos pontos de ônibus. Nas redes sociais, moradores celebraram e depois lamentaram a possibilidade de reduzir o tempo de deslocamento. Porque, para quem vive na Baixada, ganhar tempo não é detalhe. É ganhar vida.

Em ano eleitoral, não faltam leituras sobre estratégias, disputas e interesses. Mas, para quem pega transporte todo dia, a questão é outra. Fazer política é decidir como as pessoas vivem seus dias. É decidir se as cidades continuarão sendo dormitórios ou se poderão ser territórios de vida plena. Se crianças vão crescer atravessando horas em transportes para acessar lazer, cultura e educação, ou se poderão encontrar tudo isso perto de casa. Se o direito de circular pela Região Metropolitana será garantido como política pública ou tratado como concessão ocasional, exclusiva para os dias úteis. Porque o direito à cidade não começa quando se chega à capital. Ele começa onde se vive. E viver com dignidade também é poder se deslocar.

Hoje, moradores da Baixada seguem pagando caro, em dinheiro e em tempo, por um sistema fragmentado, pouco integrado e profundamente desigual. A ausência de coordenação entre municípios e o estado não é um detalhe técnico: é uma escolha política que define quem acessa e quem fica de fora.

O episódio da linha 77 não é um caso isolado. Ele revela, mais uma vez, como o direito à mobilidade ainda é disputado, interrompido e, muitas vezes, negado. Ainda nova minha mãe me ensinou a decorar cada estação do trem entre a Central do Brasil e Edson Passos – são 11 ao todo. Hoje, o que espero é que as próximas gerações não precisem decorar percursos tão longos para acessar aquilo que deveria estar ao alcance de todos. Que possam viver plenamente suas cidades. Que o deslocamento não determine seus limites. E que nenhuma linha — de ônibus, de trem ou de BRT — seja o ponto final do seu direito à cidade.

Iris Rosa é Iguaçuana, criada em Mesquita, graduada e mestre em ciências sociais pela UFRRJ e doutora em sociologia pela UFRJ.

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