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Quando a bolinha de papel para embaixo da camisa: vidas trans em escolas brasileiras

Por Sareh Benjamin

Cena 1: uma criança trans na escola

Em uma escola pública municipal do Rio de Janeiro há uma aluna trans, do 5º ano. Já no meio da manhã o sinal toca e a professora libera os alunos para fora de sala, que saem aos pulos e brincadeiras, aproveitando as brechas de tempo brincante entre as obrigações. Bianca segue em dança e estaciona na fila das meninas, quando a professora, desesperada, começa a chamar sua atenção para que vá até a fila dos meninos. Com bolinhas de papel debaixo da camisa, simulando seios maiores, Bianca não parou de pular e dançar. Ia de uma fila para a outra enquanto a professora clamava impaciente, até que decidiu onde finalmente ficaria: deu um rodopio e parou no meio de ambas as filas, finalizando sua dança e vencendo a impaciência de sua autoridade.

Essa foi uma cena que vivi ainda na graduação, em meados de 2018 durante um estágio de mediação escolar. Não tive muito tempo para conhecer a Bianca, nesse dia eu estava de passagem em sua turma pois o aluno que acompanhava não havia ido à escola. Quando cheguei a sala logo percebi sua presença, que já estava fazendo bom uso daquelas bolinhas de papel. Curioso, fui conversar com a professora e ela me contou que Bianca se achava uma menina, mas a família não aceitava e ‘era muito complicado’. Nem a professora ou a direção sabiam o que fazer a respeito, e com isso nada faziam. No fim daquela manhã também pude testemunhar Bianca indo ao banheiro feminino junto com suas colegas, a professora viu e a repreendeu novamente, mas esses gritos pareciam soar como um silêncio absoluto em seus ouvidos.

Bianca é um nome fictício para essa aluna que não sei o nome, mas que me marcou ao ponto de querer me aprofundar naquela cena de uma criança trans na escola. Então, durante dois anos fui morar em uma série de imagens localizadas em canais do Youtube de pessoas trans falando sobre suas vidas e trajetórias escolares; e busquei dar alguns contornos ao que poderia ser a presença dessas vidas nesse lugar tão caro para mim: o chão da escola.

Através de uma breve busca na plataforma Youtube com o descritor ‘trans escola’ é possível encontrar uma quantidade considerável de vídeos sobre o tema. Organizei cerca de 84 vídeos à época em uma playlist no próprio site entre os anos de 2022 e 2024 durante o mestrado em educação, e acredito que hoje seja possível encontrar um número ainda maior de resultados. Dentre os vídeos encontrados, três principais tipos de canais são possíveis de identificar: de cunho jornalístico/comunicacional, pessoal e educacional. Há conteúdos de diferentes tipos, incluindo os que falam sobre a violência acometida a pessoas trans nas escolas, projetos escolares que acolhem essas vidas, instruções sobre como solicitar nome social na escola, vlogs de pessoas trans sobre seus cotidianos escolares e vídeos pessoais que contam sobre trajetórias escolares dessas pessoas trans. Foram nesses últimos assuntos que mergulhei ao longo da pesquisa e, enquanto essas histórias são contadas, tentarei mostrar um pouco a complexidade das experiências envolvidas na presença de vida trans na escola.

É inevitável falar sobre a violência que acomete a vida precária de grupos que são marginalizados pela sociedade, marcados pela racialidade, etnia, gênero ou a deficiência que possuem (ou não) e também o território que habitam. No entanto, faço aqui um esforço proposital de caminhar na direção da produção da vida para que possamos pensar sobre ela e senti-la mais do que a morte, que já nos atravessa cotidianamente. Talvez esse movimento seja porque eu estou incluído em alguns desses marcadores atravessados pela marginalização e trazer a vida à tona é pungente para lembrar a mim mesmo e aos meus que estamos vivos(!) apesar da nossa morte diária, e porque eu acredite que declamar a vida tem um efeito muito poderoso na massa de discursos que circulam e se hegemonizam sobre nós. Ou então, porque a poética dos meus dedos sempre chega a esse espaço em algum momento, o entrelugar, onde a nossa vida – a de pessoas trans – tantas vezes se encontra; em brechas do tempo e do espaço.

Cena 2: a (quase) morte

Tatielly e Bárbara são duas mulheres trans que me fazem tatear um pouco a linha tênue entre o binário morte e vida. Ambas passaram pela transição em época escolar e idades semelhantes:  7º ano, aos 11 anos de idade. Em diferentes regiões do país, sul e nordeste, elas partilham uma história corriqueira de transfobia na escola. Tatielly foi impedida de entrar na escola quando chegou ao local como uma menina pela primeira vez. Bárbara foi proibida de usar o banheiro escolar correspondente ao seu gênero e de ser atendida pelo seu nome. Ainda assim, ambas tiveram destinos diferentes com relação à sua trajetória escolar. Enquanto Tatielly não conseguiu mais voltar à escola após a expulsão, Bárbara já se encontrava no 1º ano do Ensino Médio quando contou sua história.

Na madrugada de inverno no sul do país, ainda na pandemia da COVID-19, em uma estrada deserta de gente, Tatielly Grick tira seu celular do bolso para se filmar e fazer um desabafo. Ela conta um pouco sobre sua vida na noite de Santa Catarina e nos faz algumas perguntas.

“Quem escolheu ficar na rua num frio desse na noite? Às vezes não sabe se volta pra casa, porque na noite existe muita loucura, muita coisa. É por que ela gosta né? Porque ela quer. E não… Pensa, pra uma criança de 11 anos passar por aquilo, ouvir a diretora, pô na escola, no lugar onde era pra você ta ganhando educação! […] Ela olhou pra mim nos meus olhos e falou: eu não vou aceitar uma pessoa aqui como você aqui na minha escola, no meu colégio. Aquilo foi um baque pra mim. Então imagina, uma criança de 11 anos vai fazer o que? Ta bom, e ali acabou os meus sonhos. Ali muita coisa se perdeu. Eu perdi muitas oportunidades.”

Tatielly terminou o desabafo em vídeo com um pedido: “Eu quero, e com a ajuda de vocês eu vou conseguir, eu vou sair da noite, entendesse? Eu sou Tatielly Grick e conto com a sua ajuda pra me tirar daqui, desse lugar. E quando eu tiver lá em cima, que vocês vão me ajudar, eu vou saber agradecer a cada uma de vocês, pode ter certeza!”

Enquanto isso, entre as paredes brancas de seu quarto e a cortina de borboletas estendida sobre a janela ao fundo, Bárbara Estrella termina de arrumar o cabelo antes de contar-nos sobre sua transição na escola e também nos faz uma súplica.

“Sempre vai ter lugares que de alguma forma vão querer nos diminuir, que a gente não é capaz, que a gente não pode. Sempre vão ter aquelas pessoas pra falar isso né da gente e o que as pessoas sempre têm que lembrar é que a gente não é aquilo de ruim. Mas a lição que eu quero dar pra vcs né é que nunca desista, com toda a dificuldade, todo tipo de opressão que vc passar, não desista. Porque é isso que as pessoas querem, que a gente desista e viva na margem da sociedade. Mas não vamos dar esse gosto né, pra elas, de estar nesse lugar que é empurrado pra nós, que é a margem. Então vocês que gostam do vídeo se inscreva, curta, compartilha e manda para quem precisa assistir esse vídeo, pra alguma menina do ensino médio que está em processo de transição e está estudando, pra ela não desistir de estudar.”

Se Tatielly tivesse ouvido esse pedido de Bárbara Estrella quando transicionou, onde ela estaria hoje? Como histórias de tempos e lugares diferentes conversam tanto entre si? Pensar na força que existe nesse pedido de Bárbara, para que outras meninas trans não desistam de estudar me faz lembrar nas vozes daqueles e daquelas pretas, ou meus amigos trans que não me deixaram desistir nas muitas situações de violência que vivo desde que transicionei. Esse quilombo construído comigo e ao meu redor me fez permanecer aqui, mesmo quando viver significou fazer um grande esforço para sobreviver.

Quanto precisamos aguentar para não desistir? Eu sinceramente acredito que muitos de nós já estamos mortos, que as notícias que recebemos diariamente constatam isso, nossa morte simbólica a cada semelhante nosso que se vai em carne. Ao mesmo tempo, é com essa força coletiva embalada pelo luto que seguimos sem dar esse gosto pra sociedade, de estar nesse lugar que é empurrado para nós, a margem. 

Cena 3: arrume-se comigo para ir à escola

“[…]Hoje é o primeiro dia de uma travesti na escola, depois de assumida trans. Agora vou tomar meu banho, depois vou tomar meu café; não, depois vou me maquiar. – a cena no quarto muda para o ambiente da cozinha – Gente, maquiagem feita, bem basiquinha. Não colei cílio, não coloquei nada, tô super atrasada e tô comendo ainda. – Gabriella mostra o pote com cuscuz amarelo para a câmera, com o cabelo preso e aparentemente desarrumado, as bochechas rosas, sobrancelhas marcadas e olhos com sombra e rímel.”

“Meu Deus, tô nervosa! Vou com essa bolsinha aqui ó – e mostra para a câmera uma bolsa do tipo baguete que me faz crer que é de sua mãe.”

Tratava-se de uma inauguração de si em ‘grande estilo’, pois não era apenas seu primeiro dia como Gabriella na escola, mas o primeiro dia de retorno às aulas no contexto da pandemia da COVID-19 no estado de São Paulo. Alguns segundos após mostrar a bolsa, o cenário da cozinha muda para a rua, em que ela se grava saindo de casa com sua mãe. A mãe cumprimenta o público a seu pedido e ela mostra seu look para o primeiro dia de aula: uma blusa tomara que caia preta, por baixo de uma jaqueta jeans e uma calça jeans skinny na parte de baixo. Gabriella mostra a bolsa novamente e comenta sobre seu atraso. Ao longo dos seis minutos de vídeo assistimos ela acolher os alunos novos da escola, sua conversa com uma professora e o momento de lanchar. Ela sai mais cedo da escola e encontra sua mãe para uma consulta com o endocrinologista.

Ao gravarem seus cotidianos na escola, Gabriella e tantas outras e outros nos mostram como suas vidas estão sendo possíveis na escola. Outros vlogs comentam sobre ‘olhares’ e transfobia, mas também compartilham essas imagens que pulsam vida. Ao mesmo tempo em que a escola é um ambiente que reproduz a violência vivida em sociedade, ela também pode ser um espaço onde a diferença é valorizada. Se pensarmos em um contexto mais amplo, talvez esses vídeos sejam pouco numerosos com relação ao que se tem de produção de conteúdo em formato de vlog sobre o cotidiano escolar. Mas podemos pensar nesses vídeos sobre ‘ser trans na escola’ como parte de um movimento crescente, mesmo que pequeno em certas escalas, e que possuem efeitos inimagináveis quando o que vemos na tela é a reverberação de imagens de pessoas trans sonhando de olhos abertos, dando outros contornos àquilo que tantas vezes só conhecemos pela via da violência

Existem alunes trans que são acolhedores de turma, exemplos de sala, líderes de grêmio, pessoas que inspiram uma comunidade estudantil, que movimentam e abrem caminhos para que essas cenas sejam cada vez menos raras. Atos de vida pulsante e contagiosa, dando juz e vingando nossas vidas de um jeito ao mesmo tempo rebelde, corajoso e autêntico que somente crianças e adolescentes sabem fazer.

Cena 4: o menino sonhador se tornou professor

Havia um menino sonhador que um dia sonhou ser professor. Quando esse menino sonhou, mal se podia acreditar que seria possível, também não se duvidou. O menino deixou guardado lá dentro do coração e continuou vivendo, até que a dureza da vida em alguns momentos pareceu tentar calar esse e outros sonhos do menino. Em alguns momentos ele não sabia mais que tipo de sonho sonhar, pois a vida não guardava muitos outros espaços além daquele que se tinha para conseguir manter a respiração constante e um teto seguro. Até que o menino chegou nessas linhas, graças aos seus amigos.

Eu me chamo Benjamin, e contar sobre esses dois anos de pesquisa é sempre especial para mim porque o mestrado foi uma alternativa que encontrei para seguir na luta de ser professor. Foi um modo que encontrei de continuar dizendo ao mundo que eu havia me formado em licenciatura, e, portanto, era um direito meu poder exercer a minha profissão. Nessa época de 2018, quando conheci a Bianca, eu estava no início da minha transição, então acredito que o eco dessas imagens em mim não foi à toa. Essa criança abençoou meu caminho, porque ela me fez acreditar que eu conseguiria terminar a graduação. Afinal, como não ter fé na vida quando se vê uma criança de aproximadamente 8 anos peitando o mundo inteiro? 

Consegui me formar, finalmente, em 2021, e a situação de conseguir emprego foi muito caótica dado o contexto de saúde pública que ainda vivíamos. Mesmo assim, precisava me sustentar. Entreguei currículos, pedi indicação de amigos e consegui algumas devolutivas. Me lembro de a diretora de uma escola ler o meu currículo escrito no masculino e olhar para mim dos pés à cabeça em uma entrevista. Também não esqueço que um coordenador comentou que o diretor não me admitiria ‘do jeito que ainda estava’. 

Em 2021 eu decidi me hormonizar, foi a forma que encontrei de negociar com a sociedade uma imagem de masculinidade, assim como a Bianca fez quando colocou a bolinha de papel embaixo da camisa na escola. Sem muita expectativa de conseguir exercer minha profissão, trabalhei em outros ramos até concluir o mestrado. No mês exato da minha defesa fui convocado pela prefeitura do Rio de Janeiro para ser professor de ciências.

Bom, reverberar as histórias escolares dessas crianças, adolescentes e adultas(os) é um modo de honrar essas vidas que vencem todo dia quando entram na escola, quando, mesmo em um momento tão hostil quanto numa estrada deserta à noite, encontram no ódio alguma força para vencer, pelo menos naquele dia, um dia de cada vez. É um modo de agradecer à Bianca por me fazer acreditar que eu ia conseguir terminar a faculdade, à Bárbara, Tatielly, Gabriella, Kaíque, Kauã, e tantos outres que também me fizeram crer que de alguma forma eu conseguiria me tornar professor. Um jeito de mostrar que estudantes trans podem se espelhar em professores que se parecem com alguém que eles são. No fim das contas, é um jeito de continuar essa força, silenciosa e sutil tantas vezes.

Sareh Benjamin é uma bicha não binária, poeta, mestre em educação e professor de ciências do município do Rio de Janeiro. Ele vem da Baixada Fluminense e atualmente leciona Roda de Leitura na Zona Oeste do Rio. Amante da leitura e da escrita, arrisca algumas linhas no seu blog Escritas Ordinárias e está sempre lendo algum livro de ficção, teorias queers, feministas, do movimento negro radical…

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