Guardar a memória de uma comunidade por meio da contação de histórias é uma ferramenta ancestral utilizada por populações negras, indígenas e quilombolas para impedir que as narrativas de suas vidas sejam apagadas. É nesse enredo que atua o Baú Literário dos Sonhos, garantindo que histórias que não chegam às escolas alcancem as crianças como forma de fortalecimento de suas identidades negras.
O projeto foi idealizado em 2018 pela pedagoga, educadora ambiental e contadora de histórias afro-brasileiras infantojuvenis Eleci Martins, que faz parte da comunidade Quilombo Cafundá Astrogilda, localizado em Vargem Grande, zona oeste da cidade do Rio de Janeiro.
“O projeto nasceu da falta de interesse das crianças do território pela leitura. Eu quis fazer o Baú Literário voltado para a educação antirracista, começando a usar livros afro-brasileiros para incentivar e dar pertencimento para nossas crianças”, compartilha a pedagoga.

“O projeto nasceu da falta de interesse das crianças do território pela leitura. Eu quis fazer o Baú Literário voltado para a educação antirracista, começando a usar livros afro-brasileiros para incentivar e dar pertencimento para nossas crianças”, compartilha a pedagoga.
No Quilombo, o Baú Literário dos Sonhos divide a programação com outras atividades realizadas na comunidade. Capoeira, musicalidade, confecção de bonecas abayomi, arte com materiais reciclados, são algumas das ações realizadas no território para a valorização da cultura quilombola e o fortalecimento da identidade negra, através do compartilhamento dos saberes ancestrais seus dos griôs e mestres.
Por meio do Baú Literário dos Sonhos, são realizadas oficinas mensais de contação de histórias com foco em temas étnico-raciais, inclusão, ancestralidade, autoestima e pertencimento. As atividades são voltadas ao público infantojuvenil do Quilombo Cafundá Astrogilda e das comunidades do entorno, com o objetivo de formar leitores críticos e conscientes de sua identidade, fortalecendo a autoestima e enfrentando o racismo estrutural por meio da oralidade e da literatura afro-brasileira.



Liderança em seu território, Eleci iniciou o Baú Literário sem qualquer apoio financeiro, estruturando o projeto a partir da mobilização comunitária. Inicialmente os livros utilizados nas oficinas eram de doações, do acervo pessoal da educadora e de aquisições em brechós. As atividades incluíam contação de histórias, cantigas de roda e rodas de leitura, acompanhadas por cafés da manhã colaborativos organizados pelas mães.
“Eu comecei assim que eu terminei a minha graduação em pedagogia em 2014. Trabalhei com o projeto aqui no território até 2018 quando fomos contemplados pelo Edital Ação Locais. Agora, estamos fazendo a partir do apoio da Casa Fluminense, podendo dar continuidade a essa roda de leitura, que também é um piquenique a céu aberto, onde as crianças podem ler e se alimentar”, recorda Eleci.
No último 20 de novembro, data em que se celebra o Dia da Consciência Negra, o Baú Literário dos Sonhos, realizou uma atividade apoiada pelo Edital Agenda Rio 2030 do Fundo Casa Fluminense de 2025, valorizando a história de Zumbi dos Palmares e apresentando às crianças outras referências de heroísmo.



Segundo a liderança: “Fizemos uma roda de leitura sobre o zumbi, onde registramos tudo através de desenho e de escrita, e depois fomos expor para que outras crianças também possam se identificar com esse trabalho. Para elas entenderem que existem princesas negras, que existem heróis negros, e crescer sabendo que elas também podem”.
Com apoio ou sem, a pedagoga sempre se dedicou a promover oficinas lúdicas e reflexivas no território, combinando narrativas, mediação de leitura e rodas de conversa que reconhecem as raízes culturais e o sentimento de pertencimento entre crianças e adolescentes participantes das atividades.

Em articulação com a proposta prioritária da Agenda Rio 2030, de Sistemas de Cultura e Memória, o Baú Literário dos Sonhos, assim como o Quilombo Cafundá Astrogilda, atua na salvaguarda das histórias e memórias quilombolas, reconhecendo e fortalecendo os saberes ancestrais como formas legítimas de produção de conhecimento, resistência, visibilidade e salvaguarda dessas histórias através das crianças.