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Ressuscita São Gonçalo: dados, mobilidade e direito à cidade

Ressuscita São Gonçalo: dados e território no enfrentamento das desigualdades

No Leste da Região Metropolitana do Rio de Janeiro, o Ressuscita São Gonçalo tem se comprometido na luta de combate às desigualdades dos territórios. Atuando a partir da produção de dados, da construção de estratégias de incidência, do fortalecimento da identidade territorial e da participação popular na formulação de políticas públicas. Criado em 2019, o coletivo desenvolve ações nos territórios, dialogando diretamente com a realidade de uma cidade marcada por desigualdades socioambientais.

Em São Gonçalo, mais de 229 mil lares estão localizados em ilhas de calor, segundo dados do Cobradô, evidenciando como a crise climática se manifesta de forma desigual no cotidiano da população metropolitana. Além disso, no último reajuste das passagens municipais do território, o valor subiu de R$3,95 para R$5,55, um aumento de 40%. Diante desse cenário, o Ressuscita atua a partir da geração, organização e difusão de dados como ferramentas para aproximar a população gonçalense da realidade territorial, fortalecendo a identidade local e a luta pelo direito à cidade.

Para Wendel Rodrigues, coordenador de mobilização do coletivo, a produção de dados é central para a incidência política no município. “O Ressuscita São Gonçalo é uma organização que trabalha com pesquisas para poder incidir politicamente dentro da nossa cidade. Gerando dados a partir das informações da nossa população, a gente constrói acúmulo para, a partir disso, incidir politicamente”, afirma.

Com o apoio do Edital Agenda Rio 2030 do Fundo Casa Fluminense de 2025, o Ressuscita São Gonçalo aprofundou sua atuação na pauta da justiça climática a partir do debate sobre mobilidade urbana, conectando o transporte público às dimensões do clima, do cuidado, entre outras pautas. A proposta parte do olhar de quem vive e circula cotidianamente pela cidade, considerando desigualdades de gênero, raça, econômica e climática, dialogando com temas como Tarifa Zero, poluição do ar, bilhete único municipal e projetos estruturantes de mobilidade.

A construção da cartilha “Panorama de Mobilidade Urbana de São Gonçalo” nasce desse compromisso de pensar a cidade a partir de seus próprios sujeitos, valorizando histórias, saberes e experiências locais. O processo foi desenvolvido de forma coletiva, a partir de oficinas territoriais, rodas de conversa, entrevistas e pesquisa de campo, especialmente na Praia das Pedrinhas, território escolhido como recorte de estudo por concentrar desafios históricos de acesso, infraestrutura e mobilidade. A metodologia adotada buscou ampliar vozes nos territórios e trazer o debate da mobilidade principalmente sob a perspectiva de gênero, cuidado e justiça climática.

Segundo Wendel, incorporar dimensões como o cuidado, ao debate é fundamental para compreender os impactos da mobilidade no cotidiano da população. “Pensamos, por exemplo, na mobilidade a partir do cuidado, olhando para as mulheres que precisam levar filhos para a escola todos os dias e que sentem diariamente os impactos da mobilidade injusta na cidade”, destaca.

A cartilha evidencia que a crise da mobilidade em São Gonçalo é também uma crise climática. Dados apresentados na publicação mostram que 38% da população gonçalense vive em ruas sem nenhuma arborização, índice superior à média nacional. A ausência de infraestrutura verde intensifica os efeitos das ilhas de calor e afeta diretamente quem depende do transporte público, expondo moradores das periferias a longos deslocamentos, altas temperaturas e condições precárias de circulação pela cidade.

O material, produzido em parceria com o Projeto Três Mangueiras e o Espaço Gaia, também aprofunda o debate sobre o racismo estrutural presente nas dimensões técnicas e políticas do transporte público. A cartilha aponta como decisões sobre tarifas, rotas e qualidade dos veículos são tomadas sem a participação efetiva de quem utiliza o sistema diariamente. Ônibus sem qualidade, falta de acessibilidade e tarifas altas atingem quem mora mais longe e depende exclusivamente do transporte coletivo, reforçando desigualdades históricas no acesso à cidade.

Alinhada às propostas prioritárias da Agenda Rio 2030, como a criação de uma Secretaria Municipal do Clima, a implementação da Tarifa Zero e o fortalecimento de uma Política do Cuidado, a atuação do Ressuscita São Gonçalo reafirma a mobilidade como um direito fundamental. Ao articular pesquisa, escuta e mobilização territorial, o coletivo contribui para a construção de soluções para a realidade local, fortalecendo a incidência da sociedade civil gonçalense na luta por cidades mais justas, inclusivas e resilientes.

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