As jornadas extensas nas ruas das mulheres trabalhadoras da economia popular, as expõem a uma realidade de vulnerabilidade, enquanto lutam pelo direito ao trabalho. Entregadoras, ambulantes e catadoras, em sua maioria mães solos, elas sustentam suas famílias enquanto enfrentam a precarização do trabalho e a sobrecarga do cuidado, que, segundo dados do Cobradô, plataforma de monitoramento da Casa Fluminense, as colocam em um tempo de dedicação de cerca de 10 horas semanais a mais do que homens brancos às tarefas de cuidado.
É a partir dessa demanda por políticas de cuidado e acolhimento que surge o Coletivo Elas por Elas Providência, no Morro da Providência, região central do Rio de Janeiro. Durante a pandemia, com o agravamento da exposição ao trabalho nas ruas e o aumento da sobrecarga do cuidado, o coletivo nasceu como uma resposta comunitária para acolher mulheres trabalhadoras da economia popular, fortalecendo o bem-viver, o direito ao trabalho digno e a cidade, e o cuidado.

Idealizado por Carol da Providência, mulher negra, mãe e camelô, o coletivo nasce da vivência compartilhada com outras mulheres que atuam na economia popular. A partir das experiências coletivas, Carol passou a se organizar para enfrentar o racismo, o machismo, a precarização do trabalho e a ausência de políticas públicas nos territórios e nos locais de trabalho, que atingem especialmente as mulheres que trabalham nas ruas, trens e calçadas do Centro do Rio de Janeiro.
“Nós lutamos pelo reconhecimento da nossa categoria, de ambulantes, entregadores de aplicativo, mulheres trabalhadoras da economia popular, que é extremamente precarizada”, afirma a liderança.
O principal projeto do Coletivo Elas por Elas Providência é o Ponto de Apoio Móvel, uma estrutura itinerante montada em locais estratégicos do Centro do Rio de Janeiro, como a Central do Brasil, para atender mulheres trabalhadoras informais. O Ponto oferece banheiro químico, sombra, água, espaço de descanso e escuta ativa, funcionando como uma tecnologia popular de cuidado, acolhimento e incentivo à ocupação da cidade.
Com um trabalho estruturado a partir da escuta ativa, da construção coletiva e da mobilização de mulheres em situação de vulnerabilidade, o coletivo vem fortalecendo uma rede entre trabalhadoras majoritariamente negras e periféricas. “Hoje vamos fazer uma roda de conversa com essas mulheres aqui na Pedra Lisa, no Morro da Providência”, compartilha a idealizadora durante uma ação de acolhimento promovida pelo coletivo.



Lutar pelo direito ao trabalho e à cidade é também garantir que essas mulheres tenham uma vida digna, com acesso à saúde, educação, lazer e outros direitos básicos, podendo oferecer o mesmo aos seus filhos. Responsável por idealizar a Campanha Creche no Carnaval, que garante espaços de recreação e cuidado para crianças filhas de ambulantes durante os blocos, em parceria com a Vara da Infância e o Conselho Tutelar, o coletivo atua há anos na incidência política por direitos das trabalhadoras desta categoria.
“Estamos cansadas de ser invisibilizadas. Vamos mostrar para o Estado que fazemos, dentro da nossa comunidade e nas ruas, o que ele não faz por nós, mulheres trabalhadoras da economia popular”, protesta Carol.
O Coletivo Elas por Elas Providência, que foi apoiado pelo Edital Agenda Rio 2030 do Fundo Casa Fluminense em 2025, está alinhado às prioritárias de Política do Cuidado e Cidades Seguras, da Agenda Rio 2030 da Casa Fluminense. Atualmente, o projeto incide por um governo que reconheça e redistribua o trabalho do cuidado e por mais investimentos em infraestrutura urbana e uma política de segurança voltada à garantia da vida, principalmente das mulheres.
As ações realizadas pelo coletivo demonstram que enfrentar a desigualdade, a ausência de acolhimento e a falta de investimento do poder público nas necessidades das trabalhadoras da economia popular passa diretamente pelo apoio às tecnologias sociais de cuidado e bem-viver, geradas diretamente por quem vive e trabalha nas ruas da cidade.
