Mais do que preparar estudantes para o acesso ao ensino superior, a educação popular nasce do compromisso de fortalecer a consciência de classe, raça e gênero, construindo caminhos coletivos para enfrentar as desigualdades em favelas e periferias. O Pré-Vestibular Popular do Bom Pastor, criado em 2017, atua nessa rede da educação popular, com juventudes de escolas públicas de Belford Roxo, na Baixada Fluminense, apoiando suas entradas na universidade.
Ao longo dos seus anos de atuação, o PVP vem articulando suas aulas a partir de rodas de conversa, oficinas sobre políticas públicas, atividades de memória negra e diálogos com a realidade da juventude periférica. O projeto também desenvolve ações permanentes com as famílias dos estudantes, especialmente com mulheres negras e mães solo.
O projeto tenta contornar desigualdades estruturais ainda presentes no acesso à educação, onde, segundo o Mapa da Desigualdade da Casa Fluminense (2022), apenas 5% dos inscritos no ENEM com renda familiar de até um salário mínimo são oriundos da rede pública, enquanto 70% dos inscritos sem acesso à internet em casa são pessoas negras. Evidenciando como raça e renda impactam diretamente as oportunidades educacionais.
Articulado com a Agenda Belford Roxo 2030, o projeto também desenvolve ações de incidência política como estratégia para a transformação educacional e social do território. Uma das principais mobilizações é a construção de uma campanha pela Tarifa Zero para estudantes de cursos populares e da rede pública no município.
Cassius Clay, coordenador geral do Pré Bom Pastor, compartilha sobre as ações de incidência que o grupo articulou durante o último ano letivo, em 2025: “Viemos na Câmara Municipal realizar uma atividade de incidência territorial, que é uma das formas que o pré-vestibular tem de incidir na cidade para além das aulas”.
A ação, realizada na Câmara Municipal de Belford Roxo, com apoio do Edital Agenda Rio 2030 do Fundo Casa Fluminense em 2025, marcou um momento importante para o pré-vestibular no diálogo com o poder público municipal, na luta pelo direito dos estudantes.

“Apresentamos dois projetos de lei, um que dispõe da tarifa zero para os cursinhos populares e outro que incide pela criação do Conselho Municipal de Juventude. Propostas essas que a gente participou com a Agenda Belford Roxo 2030, construindo e incidindo politicamente dentro da cidade”, completa Clay.
Em um contexto onde o custo do deslocamento é uma das principais barreiras para a continuidade dos estudos, a pauta do transporte público aparece como central para garantir o direito à educação e à cidade para a juventude.
Alinhado às propostas prioritárias da Agenda Rio 2030, de Pré-vestibular Gratuito e Tarifa Zero, o projeto atua diretamente nas barreiras que impedem a permanência dos estudantes. Ao articular acesso à universidade com o direito à mobilidade, o curso contribui para a construção de uma política pública mais integrada, que reconhece a educação e o transporte como direitos fundamentais.
“Nós entendemos que a educação popular e a tarifa zero é fundamental para construção do novo amanhã que a gente sonho, e é isso que o Pré-vestibular Popular do Bom Pastor realiza todos os dias”, afirma o coordenador geral o projeto.

Com mais de 100 inscrições apenas em 2025, o PVP evidencia a urgência de fortalecer projetos que atuam com educação popular nas favelas e periferias da Região Metropolitana do Rio de Janeiro.
O Pré-Vestibular Popular do Bom Pastor se afirma como um espaço de resistência, acolhimento e construção política coletiva. Um lugar onde jovens se reconhecem como produtores de direitos e protagonistas na construção de outros futuros possíveis.