Reunir o mundo em casa, tornou essa edição da Conferência das Partes das Nações Unidas sobre Mudança do Clima histórica para o Brasil. Diante dos desafios, Belém recebeu mais de 40 mil pessoas de 195 países diferentes durante o mês de novembro. Pela primeira vez, a conferência aconteceu dentro de um bioma, a Amazônia – o maior do planeta.
Esta é a quinta participação da Casa Fluminense na Conferência do Clima. Nossa trajetória começou em Madri, na COP 25. Depois seguimos para o Egito, na COP 27, quando o Brasil anunciou que pediria à Organização das Nações Unidas (ONU) que a Amazônia sediasse o evento em 2025. Na COP 28, em Dubai, nos Emirados Árabes, o debate sobre financiamento climático ganhou ainda mais força, acompanhado do avanço das discussões sobre racismo ambiental, que ampliaram a pressão para que países do Norte Global destinassem recursos aos países do Sul Global. Em 2024, a delegação da Casa Fluminense desembarcou em Baku, no Azerbaijão, para a COP 29, onde lançamos a quarta edição do relatório De Olho no Transporte, reforçando a defesa de uma mobilidade sustentável e de um transporte triplo zero: zero mortes, zero tarifa e zero emissões.
Ao longo dos anos de atuação, a Casa Fluminense avançou no debate sobre justiça climática, entendendo que o enfrentamento às desigualdades passa por fortalecer os territórios e defender que é deles que saem as respostas para a crise climática. Chegamos em Belém ao lado da sociedade civil e de lideranças que tem atuado na linha de frente da crise, colocando as demandas dos territórios na mesa e carregando a expectativa de trocar experiências, reaplicar metodologias e fortalecer redes com quem atua na manutenção da vida em diversas partes do mundo.
Na COP da Amazônia, como ficou conhecida a COP 30, acompanhamos pautas importantes que se conectam diretamente com a agenda que a gente tem defendido com a nossa Rede de Lideranças e com os territórios da Região Metropolitana do Rio de Janeiro. As articulações construídas pela sociedade civil e movimentos sociais trouxeram avanços importantes para os documentos finais dessa conferência.
Governança climática
Durante os primeiros dias de conferência, o governo federal brasileiro lançou o Plano de Governança Multinível, em que o Ministério do Meio Ambiente e o Ministério das Cidades anunciaram um esforço coordenado que conecta a agenda do Adapta Cidades, os planos de ação climática e as contribuições nacionalmente determinadas, numa perspectiva de diálogo com a gestão das cidades, com o planejamento para enfrentar a crise climática que a gente tem vivido nos nossos territórios.
Esse foi um dos temas apontados pela Casa Fluminense na nova publicação lançada durante COP 30, chamada Clima é coisa séria, em que defendemos justamente a necessidade do fortalecimento da governança climática local nas cidades.
Além disso, na Blue Zone promovemos uma atividade no Regional Climate Foundations Pavillon. Levamos como proposta construir um espaço para conexões e diálogos entre práticas inovadoras de mobilização social para participação, monitoramento e incidência vivenciada entre ativistas, líderes, coletivos, movimentos e pesquisadores do Sul Global que estão na linha de frente das agendas territoriais de resiliência comunitária, adaptação inclusiva, mitigação e justiça climática. Os diálogos foram uma oportunidade para aprimoramento das práticas e costuras estratégicas transfronteiriças de transição para sociedades sustentáveis. A Casa Fluminense, representada pela coordenadora executiva Larissa Amorim, pôde compartilhar suas experiências junto de organizações parceiras como Instituto Procomum (BRA), Funbea (BRA) e Mutante (COL). Refletir sobre estratégias de participação se conecta diretamente com a discussão de Governança Climática
Adaptação Antirracista
Essa conferência foi marcada por avanços na inclusão de afrodescentes nos documentos oficiais da COP, uma disputa histórica que movimentos vinham travando nos últimos anos. O Brasil lançou a Declaração de combate ao racismo ambiental na Cúpula dos Líderes da COP30. Foi um marco histórico e político importante para reconhecer que a população negra, as mulheres, as populações de favelas e periferias, comunidades indígenas, comunidades quilombolas e tradicionais são aquelas que são as mais afetadas desproporcionalmente pelos eventos climáticos extremos.
Foi uma sinalização importante do governo brasileiro do seu desejo de se conectar e assumir um papel protagonista nas discussões globais do reconhecimento das pessoas negras e afrodescendentes dentro da agenda de prioridades. O Brasil hoje é o país que possui o maior número de pessoas afrodescendentes fora da África, ter a citação dessa população nos documentos oficiais é essencial tanto para pensar as políticas de adaptação, como para pensar a transição justa e a agenda de financiamento.
A Rede por Adaptação Antirracista, no qual a Casa Fluminense integra, possui como foco de atuação a incidência política direta com governos nos níveis federal, estaduais e municipais visando incorporar a centralidade antirracista nas políticas de adaptação. Durante a Conferência do Clima, a rede teve um papel fundamental em trazer essas discussões pro centro do debate. Na Blue Zone, realizamos o evento paralelo “Adaptação transformacional do Sul Global: raça, gênero e territórios na GGA”. O objetivo principal do encontro foi de influenciar estrategicamente as negociações em torno da Meta Global de Adaptação (GGA), ao apresentar estratégias robustas e comprovadamente bem-sucedidas, oferecendo caminhos tangíveis, escaláveis e equitativos que partem dos acúmulos do Sul Global.
Lá apresentamos o Guia para Justiça Climática, as tecnologias sociais e ancestrais mencionadas e defendemos que a agenda de negociação da adaptação coloque estas soluções no centro do debate e que o avanço na construção de indicadores de adaptação sejam discutidos com base em dados sensíveis a gênero, raça e território.
Como resultado das articulações, a população afrodescendentes foi reconhecida e citada nos documentos finais de Transição Justa, Plano de Ação de Gênero, Objetivo Global de Adaptação e o Mutirão. Esse resultado nos permite incidir e disputar cada vez mais por políticas públicas que priorizem quem está sendo mais afetado pelas mudanças do clima.
Gênero e cuidado
Em paralelo ao reconhecimento da população afrodescendente nos documentos oficiais, as discussões e negociações da pauta de gênero também conseguiram aprofundar nas demandas de mulheres mais vulnerabilizadas. Com os entraves de países como os da União Européia, Reino Unido e Austrália, a inclusão das pautas raciais dentro do Plano de Ação de Gênero foi conquistada sob muita disputa.
O novo Plano de Ação de Gênero de Belém (GAP 2026 – 2034) reúne uma série de diretrizes que vão orientar as decisões climáticas da próxima década, no que se refere à justiça de gênero. O texto final do documento reconhece mulheres indígenas e afrodescendentes como um dos grupos que sofrem de forma mais agravada os impactos da crise climática.
Além disso, o Brasil lançou as Diretrizes de Gestão em Desastres e Emergências Climáticas para Mulheres e Meninas. O documento tem como objetivo proteger direitos e promover justiça climática integrados com igualdade de gênero. O texto ainda está em elaboração e integra o Plano de Aceleração de Soluções (PAS) da Agenda de Ação da presidência da COP 30.
Os painéis durante a conferência também foram espaços em que podemos compartilhar experiências em torno da pauta de gênero. Na Green Zone, participamos do painel “Mulheres, territórios e a justiça climática: respostas para a crise ambiental”, organizado pela Defensoria Pública do Rio de Janeiro. Paola Lima, coordenadora de mobilização da Casa Fluminense, junto com Pâmela Mércia, do Instituto TJNS, Thais Lima, da COMULHER-DPRJ e Lucas Nunes, da COTUTELA – DPRJ, debateram sobre protagonismo de mulheres no enfrentamento à crise climática.
Fora da programação oficial, a sociedade civil também se mobilizou para pautar gênero e cuidado durante a COP em Belém e a Casa Fluminense marcou presença em alguns desses espaços. No Pavilhão do Cuidado, uma iniciativa da Global Alliance for Care com apoio da Procomum, Climate and Care Initiative, IDRC – CRDI e Fundação Avina, o propósito era criar um ambiente de reflexão e ação coletiva dentro da conferência. A Casa Fluminense integrou a programação representada também por Paola Lima. Ao lado de Debora Silva, do Sim! Eu Sou do Meio, e Cyntia Matos, da Casa Cuidado, Paola mediou o painel “Metodologias de Cuidado: Saberes e Práticas na Construção de Territórios Vivos”.
Com olhar voltado para as práticas de cuidado dos territórios, apresentamos a Cartografia Lideranças que Cuidam, um mapeamento de soluções desenvolvidas por lideranças negras, indígenas e quilombolas na região metropolitana do Rio de Janeiro.
A Casa das ONGs, uma iniciativa promovida pela ABONG em Belém, foi um espaço em que também pudemos compartilhar a cartografia. Na roda de conversa “Clima de Cuidado: Gênero, Juventude e Direito à Cidade”, com a mediação de Laize Fonseca, Paola Lima ao lado de Kelly Agopyan, do Instituto Pólis, Victoriana Trindade, do LACIGS, e Arthur Souza, do LACIGS+ , discutimos sobre como gênero, juventude e o direto à cidade se conectam às respostas climáticas, destacando experiências de quem vive diariamente os desafios colocados nos territórios.
Transição energética e emissões
Esta COP mostrou a necessidade de ampliar a participação social para pensar a transição energética. Considerar as vulnerabilidades e complexidades de cada território reforça a necessidade de escuta para que a transição seja, de fato, justa e inclusiva para todos.
O Brasil propôs o mapa do caminho pelo fim do uso dos combustíveis fósseis, um conjunto de ações para a sua redução gradual. A proposta parece contradizer as próprias ações do governo brasileiro. No mês passado, o Ibama autorizou a Petrobras a iniciar a exploração de petróleo na Bacia da Foz do Amazonas, ignorando toda a pressão de movimentos sociais e comunidades locais que serão diretamente afetadas. O Mapa ficou de fora da carta final da COP 30, deixando para o Brasil o compromisso de colocar sua própria iniciativa em prática.
Ainda dentro do debate de transição energética, o lançamento do relatório De Olho no Transporte 5 (DOT 5) marcou a presença da Casa Fluminense na Blue Zone com um alerta: a saúde e as finanças da população correm perigo. O documento foi apresentado no painel “Monitoramento cidadão para cidades respiráveis: a transição energética para ônibus mais acessíveis, limpos e seguros na RMRJ”, com participação de Luize Sampaio e Vitor Mihessen, da Casa Fluminense, e Maria Clara Salvador, do Centro Brasileiro de Justiça Climática (CBJC), além de Tom Grylls, da Clean Air Fund.
Luize Sampaio relembrou que o tema da mobilidade precisa ser parte das discussões climáticas e reforçou o papel da geração cidadã de dados, destacando que o relatório traz um olhar sobre o impacto direto do transporte na vida cotidiana e na saúde das pessoas.
O lançamento do DOT 5 na COP30 reforçou o papel do monitoramento cidadão na construção de políticas públicas mais democráticas e inclusivas. Ao reunir dados sobre poluição, mobilidade, gênero e desigualdade, a Casa Fluminense busca fortalecer o debate sobre transição energética justa e direito à cidade, colocando as pessoas — e não apenas os veículos — no centro da ação climática.
Monitoramento e Geração Cidadã de Dados
A importância de olhar para dados desagregados foi uma discussão presente em diversas áreas. Como resposta à essa demanda, o Ministério das Cidades e o Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação (MCTI) anunciaram o desenvolvimento do Sistema Nacional de Informações sobre Desenvolvimento Urbano (SINIDU+Clima). Essa é uma plataforma que vai agregar dados sobre clima, território e as agendas urbanas. Nossa expectativa é que esse sistema possa trazer e conectar dados desagregados também sobre gênero, raça e território, porque para avançar com a agenda de Adaptação Antirracista que a gente defende, precisamos de dados desagregados.
A sociedade civil tem atuado diretamente no monitoramento cidadão e na geração cidadã de dados. Entendendo que o debate sobre mudanças climáticas também passa por dados, a Casa Fluminense junto do Data_Labe, Decodifica e o Fogo Cruzado realizaram o Encontro Rede GCD Pré-COP 30 em Belém. O encontro teve como objetivo fortalecer conexões, refletir sobre os desafios e reafirmas o papel fundamental da produção de dados feita a partir dos territórios para o enfrentamento da crise climática.
O monitoramento é uma ferramenta essencial para diagnóstico do impacto das mudanças climáticas nos territórios e também de incidência para ações de adaptação e mitigação. Durante a conferência, também realizamos o lançamento do Painel Climático da Região Metropolitana de Belém. Numa parceria com o Centro Brasileiro de Justiça Climática e o Observatório das Baixadas, o painel é uma reaplicação do Painel Climático da Região Metropolitana do Rio desenvolvido pela Casa Fluminense.
Financiamento Climático e Filantropia
A COP 29, que aconteceu em Baku foi marcada pelos entraves em torno do financiamento climático, deixando para Belém o desafio de avançar nesse tema. O Mapa do Mapa do Caminho Baku-Belém, lançado durante a conferência na capital do Azerbaijão, prevê que até 2035 os países em desenvolvimento têm que receber dos parceiros internacionais US$ 1,3 trilhão para o combate às mudanças climáticas, para conseguir minimamente conter o avanço do aquecimento global como está agora. No caso do terceiro setor, um estudo da World Climate Foundation apontou em 2024 que apenas 2% do recurso da filantropia global vai para mudanças climáticas.
Para responder a este contexto a Rede Comuá e a Aliança de Fundos do Sul, com apoio de diversos parceiros criam a Casa Sul Global. A Casa foi pensada para influenciar os fluxos financeiros ao transformar o financiamento em uma ferramenta de justiça socioambiental para comunidades nos territórios do Sul Global. Sua primeira edição aconteceu durante a 30ª Conferência das Partes (COP30). A Casa promoveu o diálogo e a construção coletiva com atores-chave dos campos da filantropia, do clima e do financiamento para a natureza, sempre com foco em soluções locais.
Com a Aliança Territorial, conduzimos discussão sobre a urgência dos recursos chegarem aos territórios a partir da valorização de mecanismos financeiros que já estão presentes lá, como é o caso dos fundos territoriais. Abordamos discussão sobre filantropia de presença e permanência, aquela que está contextualizada a partir do território, por meio de organizações que vivem o território, que estão presentes ao longo do tempo e que são permeadas, inclusive na sua governança, pelos atores do território. Esses fatores permitem que essa filantropia aconteça e chegue aos territórios alinhada aos interesses do próprio território, para fomentar soluções criadas dessas localidades.
Durante o encontro “Cooperação para potencializar a ambição: diálogos sobre práticas, metodologias e agendas para ação climática no sul global” realizado no Regional Climate Foundations Pavillon na Blue Zone, a Casa Fluminense em parceria com Funbea, Rede Comunidades Rurales, Pastor Rice e a Fundacion Neque pautaram a filantropia de presença comprometida com agendas territoriais e incidência em políticas públicas, a partir de metodologias de educação popular de fomento à participação social. A filantropia como aliada impulsionadora de agendas importantes para fazer mudanças mais sistêmicas e estruturantes, mover estruturas e pautar soluções.
O clima é de cultura
A Casa Fluminense também acompanhou os debates de cultura e clima na COP 30, defendendo a importância da preservação dos nossos territórios e das nossas comunidades tradicionais. A cada ano, a cultura se impõe como uma importante ferramenta da mobilização e conscientização para o enfrentamento das mudanças climáticas. Os mutirões foram uma das estratégias utilizadas pela presidência da COP para estimular a participação social nas mais diversas áreas.
Além disso, a presidência da COP 30 apresentou um conjunto de 117 soluções construídas pela sociedade civil organizada e a cultura aparece em 5 dessas soluções: Acelerar a integração das considerações sobre o Patrimônio Cultural nos Planos Nacionais de Adaptação (PNAs), capacitação para a adaptação de práticas culturais e sítios patrimoniais, descarbonização da economia da influência criativa, descarbonização de edifícios com base no patrimônio e narrativas e contação de histórias como catalisadores para a ação climática.
Cúpula dos povos
A força dos coletivos e movimentos da sociedade civil foram protagonistas dessa edição da conferência. Fora dos eventos oficiais da COP, a Cúpula dos Povos reuniu 25 mil pessoas e mais de mil organizações do mundo inteiro em cinco dias de plenárias, debates e articulações naUniversidade Federal do Pará. A Marcha Global pelo Clima levou 70 mil pessoas às ruas sob o lema “A resposta somos nós!”.
A articulação continua
A Casa Fluminense está há mais de uma década fomentando a construção coletiva de políticas e ações públicas por cidades mais justas e resilientes. A COP se encerrou, mas seguiremos nos movimentando para garantia de futuros dignos nos territórios, afirmando que não há justiça climática, sem justiça racial, de gênero e econômica. Para isso, sabemos que essa agenda precisa ser construída localmente: são nos territórios que surgem tecnologias sociais de transformação social.