[#Tribuna Rio Por Inteiro] Centralidades Periféricas: entre a percepção e a materialidade

Texto por
Aline Souza
Data
18 de abril de 2018

 

Por Daniel Rosa*

No ano de 2015, o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística – IBGE lançou o estudo “Arranjos populacionais e concentrações urbanas do Brasil” com ênfase nas grandes aglomerações urbanas, em contraste com pesquisas anteriores que demarcavam, por exemplo, a Região de Influência das Cidades (REGIC) (1). Essas regiões focavam na oferta de serviços para estabelecer graus de centralidade entre as cidades. Como resultado, trouxeram a interpretação (a partir dos anos 1980) de que a rede metropolitana fluminense era composta por um núcleo extremamente concentrado em oposição a todos os demais municípios metropolitanos. Estes então seriam subordinados à cidade do Rio de Janeiro, servindo predominantemente como reservatório de mão-de-obra para a capital fluminense, ratificando no imaginário local do conjunto destas cidades periféricas a percepção da função dormitório.

O tratamento do estudo de 2015 assinala, como outros pesquisadores já haviam proposto, que a região metropolitana não é composta de forma unidimensional por um centro dinâmico e por cidades periféricas pobres e dependentes do centro. O binômio centro–periferia é substituído pela ideia de grandes aglomerações, entendendo que cidades periféricas têm uma participação importante no conjunto metropolitano e que dinâmicas pendulares fazem parte da vida de relações das grandes aglomerações expressando também, mas não unicamente, uma dependência do núcleo metropolitano.

Centro comercial de Nova Iguaçu

Em relação às maiores ligações metropolitanas, Niterói – São Gonçalo (120.329), Duque de Caxias – Rio de Janeiro (118.971), Nova Iguaçu – Rio de Janeiro (84.247) aparecem entre os maiores deslocamentos pendulares (2) do país. Uma leitura superficial acabaria reforçando um caráter “dormitório” destas cidades. O ponto de inflexão está na consolidação de centralidades periféricas. Isto significa admitir que as grandes aglomerações periféricas (assumidamente, São Gonçalo, Duque de Caxias e Nova Iguaçu) não são apenas emissores de movimento pendular, mas têm ligações como receptores de deslocamentos entre periferia – periferia e núcleo – periferia.

Este é um movimento de causas transversais, mas a explicação basilar é de que grandes aglomerações urbanas (como São Gonçalo, 16ª cidade do país com população estimada em 1.049.826 habitantes para o ano de 2017), possuem uma economia urbana diversificada que é retroalimentada pela dinâmica da própria aglomeração urbana.

Na primeira metade do século XX, estes três municípios periféricos destacados fizeram a transição para o meio urbano com destaque para atividade industrial. A partir dos anos 1970, assumem a economia de serviços na maior composição de seu Produto Interno Bruto (PIB) e atualmente, para além do estigma de pobreza homogênea, estas grandes aglomerações fluminenses possuem na heterogeneidade o seu novo perfil.

Desde os anos 1980 elas abrigam residentes de estratos de renda que vão de ½ salário mínimo até famílias com 20 salários mínimos, mostrando a grande diversidade socioeconômica de seus habitantes. Ampliaram-se nos últimos 15 anos a oferta de empreendimentos imobiliários para os diferentes estratos de renda, surgiram equipamentos de consumo (São Gonçalo recebe seu primeiro shopping center em 2004), as universidades e comércio local atraem estudantes de outras cidades e, a partir dos anos 2000, a expansão qualitativa das agências bancárias (como por exemplo, a segmentação de agências em Prime, Van Gogh, Personnalité e Estilo) (3) apontam a necessidade de olhar as três grandes periferias como centralidades que necessitam de maior atenção por parte dos atores envolvidos no planejamento.

É necessário que a residentes e planejadores superem a ideia de uma periferia apenas como espaço de carências. Elas persistem, mas urge consolidar a percepção de que a grande periferia é um espaço de contradições e que apresenta hoje, uma vida de relações mais rica e diversificada. A periferia é também um espaço de oportunidades.

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* Daniel Rosa é mestre em Geografia (UERJ-2010) com pesquisa na área de concentração, gestão e estruturação do espaço geográfico. Sua tese de doutorado em Geografia Humana na Universidade de São Paulo (USP) recebeu o título “De cidade-dormitório à centralidade da grande cidade periférica: trabalho, consumo e vida de relações de São Gonçalo na Região Metropolitana do Rio de Janeiro (RJ)“. Professor de ensino fundamental, atua há 10 anos como servidor público da rede municipal da prefeitura do Rio de Janeiro e na secretaria de educação do município de Duque de Caxias.

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Notas:

1 – IBGE, Região de Influência das Cidades. (1987, 1993 e 2007).

2 – No Brasil, em 2010 a ligação São Gonçalo – Niterói foi superada apenas pela ligação Guarulhos – São Paulo que tinha 146.330 deslocamentos pendulares, ou seja, pessoa que se deslocam por motivo de trabalho e estudo fora de seu município de residência.

3 – O aumento do número de agências bancárias nas grandes cidades periféricas indicam um maior dinamismo da economia urbana das grandes aglomerações. A respeito, ver em ROSA, Daniel: “De cidade-dormitório à centralidade da grande cidade periférica: trabalho, consumo e vida de relações de São Gonçalo na Região Metropolitana do Rio de Janeiro (RJ) “ – Tese de Doutorado. Universidade de São Paulo, 2018.

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