Integração poderia ser fator decisivo para sucesso das barcas em Caxias

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Texto por
Saulo Pereira Guimarães
Data
17 de julho de 2017

A apesar de ter gerado muitas expectativas em torno da possibilidade de Duque de Caxias ganhar uma ligação por barcas com a Praça XV, a informação da Secretaria Estadual de Transportes (Setrans) não se confirmou. Infelizmente, a ideia de levar as barcas até Caxias foi temporariamente abortada. Na edição de 17 de julho do Diário Oficial, o governador Luiz Fernando Pezão vetou o projeto de lei 1542, que criava a ligação marítima entre a Praça XV e o município da Baixada Fluminense. “A Secretaria de Estado de Transporte (Setrans) emitiu parecer destacando que a criação de nova linha transporte aquaviário depende necessariamente de prévio estudo técnico de viabilidade, o que efetivamente não foi realizado” , afirmou Pezão no texto do veto.

Em e-mail enviado à Casa Fluminense no dia 13 de junho, a Setrans informou que “o trajeto Praça XV – Caxias – Praça XV já está incluído no novo processo licitatório das Barcas, junto a outras duas linhas (Praça XV – São Gonçalo e Praça XV e/ou Santos Dumont – Galeão), que serão estudadas no primeiro ano de operação para implementação imediata, caso seja comprovada sua viabilidade técnica e econômica”. Procurada no dia 17 de julho, a assessoria do órgão afirmou que, com o trecho acima, queria dizer que a implementação da linha de Caxias dependia de um estudo de viabilidade econômica assim como as outras duas citadas, o que não foi compreendido assim por nossa reportagem por ocasião da publicação do texto. Até então, a promessa era de anunciar, até o fim de agosto, a medida, que teria um novo edital de concessão do serviço.

Para especialistas, a integração física, operacional e tarifária seria decisiva para o sucesso do primeiro terminal aquaviário do tipo na Baixada. Fundador do movimento Baía Viva, Sergio Ricardo considera fundamental uma boa conexão entre a suposta estação e as linhas de ônibus que circulariam em suas proximidades. “A prefeitura deverá modificar o trajeto dessas linhas para facilitar a baldeação entre os dois meios de transporte”, afirma ele. Já o economista do Centro de Estudos de Regulação e Infraestrutura da Fundação Getúlio Vargas (Ceri/FGV) Edmilson Varejão destaca que a facilidade de pagamento é importante para o êxito da iniciativa, no futuro. “O mesmo cartão precisa valer para ônibus e barcas e oferecer um preço mais barato para quem usa os dois serviços”, diz ele. Vale lembrar que hoje a tarifa das barcas (R$5,90) só sai mais em conta (R$ 5) para os passageiros que usam o Bilhete Único Intermunicipal e apenas nos trajetos Praça XV-Paquetá e Praça XV-Cocotá. Hoje, quem usa o Bilhete Único Carioca, Bilhete Único Niterói ou viaja no itinerário Praça XV-Charitas não tem direito ao benefício.

Uma linha aquaviária ligando Caxias à Praça XV tem potencial para atender mais de 26 mil passageiros por dia, de acordo com um estudo feito em 2015 pela Federação das Indústrias do Estado do Rio (Firjan). Segundo o mesmo levantamento, a oferta do serviço retiraria cerca de 10 mil veículos de circulação e reduziria em mais de 8 quilômetros os engarrafamentos verificados diariamente na rodovia Washington Luiz e na avenida Brasil. “Caso saia do papel algum dia, a nova estação representará uma boa alternativa de mobilidade para uma das maiores cidades do nosso estado”, acredita Sergio. Porém, a implementação da novidade envolve desafios. “Hoje, há barcas que levam mais de uma hora para ir do Centro a Paquetá. A nova linha vai precisar de barcas mais ágeis para ser uma opção interessante”, afirma Gabriel Stumpf, engenheiro de transportes do Ceri/FGV. Além disso, as embarcações também não podem ser muito grandes. “Operar na baía com barcas de 3.000 lugares como as atuais é algo economicamente inviável fora dos horários de pico”, explica Sergio.

A expectativa da Setrans era que as obras do terminal aquaviário de Caxias durassem dois anos no valor de R$ 180 milhões. Os números são do secretário Rodrigo Vieira e foram fornecidos em audiência na Assembleia Legislativa do Estado no dia 15 de maio. Localizada na rua Almirante Greenfall, nos fundos do parque gráfico do grupo lobo e do hospital Moacyr do Carmo, a nova estação iria contar com quatro berços de atracação e um canal com 100 metros de largura e 6 metros de profundidade. Com população estimada em pouco mais de 885 mil habitantes pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), Caxias tem quase 250 mil moradores que trabalham na capital, de acordo com o Mapa da Desigualdade.

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São Gonçalo e Galeão

O edital que levaria as barcas até Caxias surgiu após a atual empresa responsável pelo serviço abrir mão da operação sob alegação de prejuízos financeiros. “O projeto não está bom para a companhia, para a sociedade e para o governo”, resumiu a diretora de relação com os investidores da CCR Barcas Flávia Godoy em teleconferência no fim de 2016. Além das regras para a escolha de uma nova empresa, o novo edital poderia determinar a realização de estudos de viabilidade técnica e econômica para linhas ligando São Gonçalo à Praça XV e o aeroporto do Galeão ao Centro do Rio pela próxima concessionária em seu primeiro ano de operação. Caso os trajetos se mostrem praticáveis, teriam “implementação imediata”, de acordo com a Setrans. Mas não será mais assim.

O estudo da Firjan estima que mais de 50 mil usuários poderiam ser atendidos todos os dias caso São Gonçalo contasse com uma estação de barcas. “Essa é uma linha cuja a implementação também poderia ser obrigatória, já que ela estava prevista no contrato de concessão das barcas de 1998“, argumenta Sergio. Segundo ele, a presença de empresas de ônibus de São Gonçalo no consórcio vencedor naquela ocasião impediu que o trajeto até o Centro do Rio se tornasse realidade. Já no caso do Galeão, uma ligação por barcas com a Praça XV atenderia mais de 10 mil pessoas por dia, de acordo com as projeções de 2015.

A movimentação gerada pela criação de estações de barcas em Caxias e no Galeão poderia contribuir para chamar a atenção dos passageiros para a costa oeste da Baía de Guanabara e toda a poluição que ali existe. A aposta é de Sergio Ricardo, que defende intervenções na região por parte do poder público. “Vai ficar muito feio haver circulação de embarcações por ali sem que aconteça a revitalização da área, que tem clubes, áreas esportivas e um grande potencial para se desenvolver”, defende ele. “Se algum dia forem viabilizadas tais mudanças, a baía pode se tornar um espaço de transporte importante”, acredita Gabriel. A expansão do transporte aquaviário é uma das bandeiras da Agenda Rio, conjunto de ideias para a região metropolitana proposto pela Casa Fluminense.

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